domingo, 21 de abril de 2013

A vitória do feminismo no Facebook*


*Este post é uma resposta ao texto "A derrota do feminismo no Facebook"



          A feminista negra bell hooks (sim, o codinome dela se escreve propositadamente com letras minúsculas) deve estar adorando a atual florescência do feminismo na internet e, especialmente, no Facebook. Autora do livro "Feminism is for everybody", bell hooks defende com todas as forças que o feminismo deve ser entendido como um  movimento de transformação que visa acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão. Veja, ela fala claramente contra o que ela chama de "feminismo reformista", amplamente difundido e preconizado por Betty Friedan, enquanto luta pela igualdade de direitos (com um claro recorte de emancipação de mulheres brancas de classe média) e não pensado enquanto enfretamento ao patriarcado.

          Pois bem, se estamos pensando sobre a construção de uma sociedade pautada em valores outros que não a heteronormatividade, a opressão capitalista, colonial e sexista, precisamos olhar a forma como nos constituímos enquanto pessoas e a forma como criamos nossxs filhxs. E é por isso que está sendo tão incrível ver a "construção da identidade de mulher" (o que quer que isso signifique) nesse momento. Aos olharmos nossas TLs vemos mulheres valorizando a desconstrução de modelos previamente definidos (por quem?) de beleza, sucesso, feminilidade. Vemos pessoas discutindo gênero, sexualidade, raça, etnia, religião e todas as suas interseções, pensando suas próprias constituições enquanto sujeitxs. Coisa linda.

          Um fenômeno muito interessante, dos muitos que percebemos nos usos das redes sociais e na constituição de identidades (ou na desconstrução delas), é o movimento conhecido como Maternidade Ativa. Grupos de mães e pais discutem parto, aleitamento, alimentação dos bebês, modelos pedagógicos escolares, consumismo e, pasmem, identidades de gênero. E, se estamos falando em mudar o mundo, acho que devemos começar por aí, não?

          Vamos lá: maternidade ativa, paternidade ativa, chame como quiser, trata essencialmente de empoderamento e, principalmente, de AMOR. Clamamos todos os dias "mais amor, por favor", mas estamos assistindo ao crescimento de uma geração de "abandonados" ou, como chamou Sergio Sinay, a "Sociedade dos filhos órfãos". Sim, o viver na sociedade capitalista contemporânea, no mundo líquido, nos impõe uma série de exigências e, a principal delas: SUCESSO. O nosso ser feliz tornou-se automaticamente ser bem-sucedidx. Muito trabalho para manter-se "saudável, articuladx, engajadx e bem-vestidx". Muitas horas na academia, no salão, no shopping, no divã. Muitas horas de trabalho, formação continuada, atualização profissional. Muitas horas fotografando no Instagram o que comemos, o que vestimos, como somos bacanas, jovens, descoladxs e BEM-SUCEDIDXS.

          Então, veja só, nadando contra a corrente opressora da perfeição midiática, o "moinho satânico que nos transforma em massa" encontramos mães e pais que estão discutindo tudo isso. Vou apresentar alguns pontos principais aqui, para que a gente veja como isso tem tudo a ver com feminismo e com a articulação no Facebook.

          Michel Odent nos diz 
 para mudar o mundo é preciso primeiro mudar a forma de nascer”. Ao optar pelo parto natural a mulher toma para si o protagonismo do gestar e do parir. É uma atitude extremamente subversiva, de desestruturação dos discursos de poder, pautados pela autoridade médica. É uma retomada da autonomia do corpo (historicamente controlado, castrado e submetido pelo patriarcado). É a possibilidade de viver um parto orgástico, momento clímax de autonomia. Sim, parir muda tudo. E muda para os homens também. Para os homens cis que participam de todos esse processo, não como meros expectadores vestidos de verde, mas como elemento de confiança. Muda para os homens trans, que estão quebrando todas as barreiras essencialistas biológicas, subvertendo a realidade do "se o homem  parisse" e, melhor ainda, mudando o mito da MÃE, figura freudiana que habita nosso inconsciente coletivo. Desestabilizando esse paraíso materno, pois quando o homem pode gestar, parir e amamentar os nossos chamados "papéis sociais" obrigatoriamente têm que ser repensados.

          Outro ponto bacana para pensarmos é a questão da amamentação. Esse ato tão anticapitalista. Veja só, que absurdo. Não precisa de mamadeira, de chupeta, de fórmula (ou leite, como é conhecido), de remédio para cólica, de papinha no potinho, de suquinho na latinha. De alimentação artificial industrializada, sintética e cancerígena. Não precisa de vacina. Oi? Estamos falando de indústria de alimentos, de indústria farmacêutica? Sim, subversivo demais. Aleitamento sob livre demanda é amor e não combina com workaholism e nem com salão de beleza. Oi? Estamos falando de contestação de padrões de beleza e estéticos? Sim. Estamos dizendo que a mulher pode se sentir feminina e sexy sem estar depilada, de unha feita e cabelo perfeitamente alisado com chapinha.  Que a mulher pode olhar para as estrias na sua barriga e pensar na sua trajetória de empoderamento,  em vez de se sentir horrorosa e miserável. Que a mãe pode viver uma sexualidade livre do esteriótipo atrizdefilmepornôplastificadaesiliconada. Sim, a maternidade liberta.

          Por fim, porque esse texto já tá enorme, volto para o amor. Minha TL é cheia de pessoas lindas e amorosas que estão mudando o mundo um pouquinho todos os dias. Cheia de pais e mães que cuidam dos seus filhos, que usam o facebook como fonte de informação e de união. De gente que curte tomar uma cervejinha com xs amigxs, ou de se descabelar numa noitada de tequila, mas que não abre mão de estar presente na vida dxs filhxs. Porque estar presente na vida dxs filhxs é se doar um pouco, é fugir do individualismo capitalista, é dizer não para a felicidade do sucesso e dizer sim para a felicidade do viver. Na minha TL as crianças são ensinadas que brincadeira não tem gênero, que cabelo afro é lindo, que alimentação saudável é importante. Pais e mães não vivem a vida APESAR dos filhos e não vivem a vida DOS filhos. Vivem a vida COM os filhos.

          É, Betty Friedan deve estar se torcendo no túmulo. Depois da luta para liberar a mulher do jugo doméstico (deixando-a à mercê das outras forças do patriarcado) as mulheres estão optando pela vida doméstica. Escolheram fugir do modelo mulherperfeitamultifaacetada: mulher independente, bem-sucedida, mãe, que passa o dia linda sobre o salto e à noite, depois de cuidar da casa e dos filhos, está sexy em sua lingerie Victoria Secrets pronta para uma noite de prazeres com o maridão. 

Feminismo e maternidade. Pode?

domingo, 25 de novembro de 2012

Violência Obstétrica


No dia Internacional de Luta pelo Fim da Violência contra  a Mulher, vamos falar sobre a Violência Obstétrica:
Entender que o direito ao parto, com respeito e autonomia, é fundamental para a mulher grávida é um primeiro passo no combate à violência obstétrica.
O trauma do parto/cesárea mal conduzido deixa marcas físicas e emocionais que transformam o momento maravilhoso do nascimento de um filho em uma sequela insuperável.
É necessário construir um movimento forte que inclua não só as gestantes, mas o poder público e profissionais de saúde, para que esse tipo de violência deixe de existir.

Não deixe de ver o vídeo. Os depoimentos são fortes e emocionantes, mas é preciso dar voz a essas mulheres.


VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - A voz das brasileiras

sábado, 15 de setembro de 2012

Mamãe está mudando o mundo

Difícil lidar com a vontade de mudar o mundo. Essa eterna sensação de não se conformar com as desigualdades, opressões e explorações que estão presentes em nossas vidas todos os dias.
Ainda mais nesta fase, beirando os quarenta, com filhos, casa e uma carreira capenga pra cuidar. É claro que tenho que abrir mão de muitas coisas para conciliar tudo isso, principalmente por optar pela maternidade ativa. 

Às vezes me sinto ultrapassada, como se devesse deixar para galera mais jovem a missão de lutar por mim. Mas essa não é a minha natureza. Minha insatisfação e indignação não se abrandam com uma casa maior, uma roupa mais bonita, um sapato ou uma bolsa.



Então, mesmo sem saber bem onde vou chegar, vou levando minha "causa" em frente.  Tenho um companheiro feminista, que me respeita, me apoia e luta comigo. Tenho amigxs de militância maravilhosxs, que me ajudam a perceber meus próprios privilégios e preconceitos. Tenho alunxs incríveis que me acompanham nessa jornada e todos os dias conheço alguém que me ensina um pouco mais sobre como podemos tentar ser melhores.


Hoje passei a manhã inteira debatendo o machismo e a opressão sofrida pela mulher na sociedade capitalista. Passei o almoço conversando com o Júlio sobre a nossa própria matriz de privilégios e tudo o que envolve as escolhas que fazemos.


Quando cheguei em casa, recebi via facebook esta foto, da Priscila, dizendo: lembrei de você.






Então é isso: quando eu privilegio a luta, eu ensino aos meus filhos que a família é muito mais do que a mãe carregando o mundo. Eu ensino que o pai pode protagonizar a educação e o cuidado, que a criação dos filhos é responsabilidade do casal. Que uma relação afetiva se constrói no respeito e que, sim, uma mãe militante não está deixando de educá-los, mas está contribuindo com a educação de todxs. 

Obrigada, Priscila, por me fazer perceber que, mesmo com todas dúvidas do mundo, estou conseguindo reverberar a transformação.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Todo o amor que houver nessa vida


Passaram-se dez anos daquela noite louca.
O cara mais interessante da noite, com seu casaco adidas e a piada interna "acho que já fiquei com ele".
Dois bares, muitos, mas muitos drinks. 
"Pois é, sou milica e moro com a Gilce e o Fernando, que é o padrinho do meu filho..."
Só pra avisar, né?

"Ah, essa eu tenho que dançar!!!!"

O beijo mais longo da história. O primeiro de muitos, longos e maravilhosos.




E agora?
Passou no teste da barraca, da festa com os amigos...
Dia dos namorados, presentinhos surpresas, o chuveiro mais descolado...
Muitas roupas no armário. Briga, as roupas vão embora, sem nem um bilhetinho. E o colchão não cabe no carro.
Volta e vem com o PC. Agora, sim, é pra valer.
Lua de mel, trabalho, festa...
Um  filho pra criar: e os ciúmes? A conquista se faz no todo dia. E a família nasce do amor.
Essa família tão estranha.

Vou pro Rio - Eu não vou.
Voltei - Vamos?
Vamos.
45m² - felizes e furiosos

Mais uma mudança, mais uma casa, mais uma escola.
Mais uma mudança, mais uma casa, outra vida.

Outro filho, "feito em casa".

Amor, confiança e respeito. Nem sempre nessa ordem e nem sempre todo o dia.
Mas quando importa, quando precisa.
Tem espaço pra cada um e pra todo mundo.
E nada de sexo protocolar.

Ninguém disse que seria fácil, mas ninguém imaginou que o difícil seria tão gostoso.
Porque amar é isso, é dar espaço pra tudo que vem do outro, junto com o que é seu.
"Nós é muita gente", mas o nosso nós é um universo inteiro.

Agora, estamos assim, 3.650 dias, 8.760 horas, 525.600 minutos depois:
Um Júlio, uma Máira, um Ian, um Tom, uma Mimi, uma Kombi, um terreno, um projeto.

Punk rock, feminismo, escotismo, vegetarianismo, low-fi.

Comemoramos todos os dias a vida incrível que construímos. É boa porque é nossa e porque nela tem espaço pra tudo o que nos é mais importante.

E eu sou tão feliz, mas tão feliz, que ainda fui presenteada com a oportunidade de extravasar meu eu mais "eu" em comemoração às nossas bodas.





sábado, 12 de maio de 2012

Maternagem



Falar sobre o dia das mães é sempre complicado, muito clichê e pouca reflexão...

Mas vou cá dar os meu pitacos sobre o tema também. 

Sinto muita falta da minha mãe, que morreu de câncer em 2005. Morte sofrida, dolorosa, levou um pouco de cada um de nós que ficamos por aqui. 


Minha mãe não era uma santa, nem uma super-mulher nem nenhum desses adjetivos que costuma-se usar para caracterizar a figura genitora. 

Era uma mulher normal (seja lá o que isso for) que trilhou o seu caminho de erros e acertos com muita dignidade. Se devo a ela a minha vida, obviamente porque ela me gestou, devo também porque ela optou por não desistir de mim.

Isso significa que, mesmo não me entendendo e não me aceitando, ela deixou a maternidade conduzir nossa relação. Esta sempre foi um combate, mas as batalhas que travamos  nos tornaram mais fortes e, por incrível que pareça, mais unidas. 


Foi apenas quando me tornei mãe que passamos a nos compreender um pouco mais. Entendemos as escolhas que fizemos (ela como mãe e eu como mulher) e nos respeitamos. No final, nos tornamos verdadeiramente companheiras e amigas.



Hoje a maternidade em minha vida é a minha própria, cheia de muitas dúvidas e algumas poucas certezas. Já escrevi por aqui que não carrego culpas, apesar de ter bastante medo. Também já escrevi que é fácil amar um filho que te obedece e que é uma continuidade sua (seja porque se parece com você ou porque é como você gostaria que fosse).


Difícil é amar um filho quando ele faz escolhas com as quais você não concorda, quando sua presença não é mais predominante, quando ele se torna um indivíduo com personalidade e vontades totalmente independentes da sua. Esse sim é o amor maior, incondicional.


Eu não sou uma super-mãe, não sou a melhor mãe do mundo. Sou humana, bem humana, e cometo muitos erros. Mas, assim como a minha mãe não desistiu de mim, não desisto das escolhas que faço (não enquanto ainda são válidas). Confio muito na maneira de maternar que escolhi e que vivencio em todas as instâncias da minha vida. 


E confio, sim, na maternidade ativa e consciente.





segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dia Internacional contra a Culpabilização da Vítima







03/04/2011 - O mundo inteiro assistiu, atônito, um grupo de pessoas (mulheres, em sua maioria) sair às ruas sob o nome de Slutwalk
A marcha contra a culpabilização da mulher nos casos de violência sexual espalhou-se pelo mundo ao longo do ano e tornou-se um movimento de conscientização: "Meu corpo não é um convite ao estupro".


Agora, em 2012, o movimento internacional SLUTWALK está criando o "Dia Internacional pelo fim da culpabilização".
Em comemoração à data da primeira marcha, mulheres do mundo todo estão sendo convocadas a participar da ação de conscientização: a culpa da agressão sexual é SEMPRE do agressor.


Leia abaixo uma tradução livre do texto das Slutwalkers de Toronto:


"Em 03 de abril de 2011 aconteceu a primeira Slutwalk, em Toronto, Canadá. Inspiradas e influenciadas pelo poderoso esforço antiviolência criado antes de nós, Slutwalk decidiu lutar contra a culpabilização da vítima enquanto uma experiência difundida de violência sexual. Tudo começou em Toronto, mas a mensagem contra a culpabilização espalhou-se rapidamente por cidades e comunidades do mundo todo. Todxs queremos ver o fim da culpabilização da vítima. 
No ano passado nós presenciamos inciativas coletivas incríveis lutando pelo respeito e suporte a todxs xs sobreviventes da violência sexual. Em reconhecimento a esses esforços e a muitas outras ações em curso, nós definimos o dia 03 de abril de2012 como o I Dia Internacional contra a Culpabilização da Vítima.


Nós convidamos a todxs a unirem-se em um dia de ação: organize debates, oficinas, torne pública a sua luta pelo fim da violência. Junte-se a nós na missão de conscientizar o mundo de que quem sofreu violência sexual NUNCA é x culpadx."

quinta-feira, 1 de março de 2012

Será que precisamos mesmo lutar?


Pior do que isso, o que escutamos hoje é: "A culpa é das feministas, que queimaram o sutiã e agora eu tenho que trabalhar e cuidar dos filhos."
Esquecem que antigamente a mulher ela considerada "propriedade" do homem (pai ou marido). Não tinha autonomia para decidir nada em sua vida, se poderia estudar ou viajar, qu
Hoje damos início ao Mês da Mulher. 
Em todo o mundo estão sendo planejados eventos, debates, comemorações e homenagens, centralizados no dia 08, o "Dia Internacional da Mulher".
Essa data marca a luta histórica das mulheres pela igualdade, mas também marca a urgência do resgate desta luta.

Estamos muito longe de podermos considerar nossa causa como esgotada.

Se o feminismo conseguiu vitórias importantes em termos de equidade, sofre hoje a ameaça do descrédito e da desqualificação.

Muitas mulheres enchem o peito para afirmar que são "femininas" e não "feministas", como se apropriar-se da causa feminista significasse imediatamente abandonar o gênero feminino e adentrar ao mundo subjetivo do não-mulher.

Acho esse pensamento muito perigoso, pois reproduz um discurso opressor e banaliza o movimento de emancipação da mulher.

antos filhos teria, se lavaria ou não a louça...
É fácil emitir esse tipo de fala quando se é livre para ir e vir...


O que muitas mulheres não conseguem perceber é que, enquanto reclamam que "têm" que trabalhar, há um universo de mulheres que não tem poder sobre suas próprias vidas.


Continuamos sendo tratadas como bruxas, vadias, fracas, objetos... Continuamos perpetuando comportamentos negativos e o que é pior, criticando o processo de empoderamento daquelas que batalham para se libertar.


Então, a resposta deste post é: sim, precisamos lutar muito ainda...


Vem pra luta também!


Conheça um pouco do feminismo contemporâneo, você vai se surpreender
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