terça-feira, 29 de novembro de 2005

Música e escolhas




Eu adoro música.
Desde os tempos de criança, quando ouvia apenas rádio e trilhas sonoras de novela, minha vida já tinha sua própria trilha.
Na minha família, ninguém nunca foi muito fã de nada em específico.
Meu pai gostava de Roberto Carlos e até comprou alguns discos, mas ficou nisso.
No mais, eram apenas coletâneas, de qualquer coisa.
Minhas irmãs, mais velhas, também não eram fanáticas por nada.
Houve um tempo em que a mais velha curtiu Rádio Taxi, mas não passou disso.
A do meio (sou a caçula) viveu uma fase gloriosa onde tinha várias fitas k7 de rock'n roll.
Só coisa boa, e confesso que fiquei com quase todas.
Mas essa fase também passou e hoje ambas continuam na base da trilha de novela.

Eu, bom, desde que ouvi minha primeira fitinha do Joy Division, nunca mais larguei a busca por bandas que fizessem músicas que me falassem algo.
Passei pela fase pós-punk, punk, metal, indie e hoje gosto de muitas coisas.
Não sou eclética. Gosto de bandas e cantores específicos e tudo que escuto está relacionado a algum fato da minha vida.

Tudo isso para dizer que 2005 foi o ano dos grandes shows.
Para listar os mais importantes, para mim:
Placebo
Orishas
Weezer
Strokes
Manu Chao
Pearl Jam

Gostaria de comentar o que senti ao ver cada um deles, mas não posso.
Porque não estive presente em nenhum deles.

É aí que entram as escolhas. Em um determinado momento da minha vida, decidi fazer as coisas acontecerem para mim. Não foi fácil, muito pelo contrário.
Precisei de uma força hercúlea e estou me recuperando até agora.
Mas, ao escolher tornar meu sonho realidade, sabia que teria que abrir mão de muita coisa.
Abandonei minha família, meus amigos, minha casa, meu carro, meu conforto, meu emprego, minha cidade, minha vida...


Troquei por uma nova vida, em uma nova cidade, em um apartamento-trailler, usuária do sistema coletivo de transporte, de chinelo de dedos .
Ganhei a chance de estudar o que sempre desejei e, como conseqüência, estabeleci uma nova relação com o meu filho e com o meu marido, muito melhor e mais saudável

É claro que sou a mesma pessoa, mas amadureci mil anos por arcar com o peso da minha escolha.
Sim, perdi grandes shows, principalmente o do Orishas, num pequeno bar em Curitiba, onde eu poderia ter tomado muita tequila, gritado enlouquecidamente todas as músicas, conversado com os caras e dado um enorme vexame, como costumo fazer quando estou muito feliz e bebo demais.

Mas, hoje, me contento com as pequenas alegrias...
Elas me lembram que cada dia é uma vitória, que ainda estou na luta.
E, se nela persistir, logo estarei vendo todos esses shows e muitos outros.
Com certeza, terá valido a pena.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Flor da Pele



Ando tão à flor da pele
que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele
que teu olhar flor na janela me faz morrer
Ando tão à flor da pele
que meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão à flor da peleque a minha pele tem o fogo do juízo final
Um barco sem porto sem rumo sem vela cavalo sem sela
Um bicho solto um cão sem dono um menino um bandido
Às vezes me preservo noutras suicido
Um barco sem porto sem rumo sem vela cavalo sem sela
Um bicho solto um cão sem dono um menino um bandido
Às vezes me preservo noutras suicido

Flor da Pele - Zeca Baleiro

...

Cada vez que resolvo abrir alguma antiga agenda, me assombro com a ingenuidade, a urgência, a necessidade, o caos que encontro ali gravado em palavras...Mas, ao mesmo tempo, me reconheço inteira, com todos os meus lados mais obscuros, além dos mais óbvios, que eu nem mesmo sabia que estavam ali...Comecei a escrever sobre isso em um post, mas, como todos os outros, ficou suspenso em uma idéia incompleta.
Ainda preciso fazer um efetivo exercício de escrita para conseguir realmente expressar meus pensamentos e sentimentos em palavras. Meu incrível poder de síntese, que pragmaticamente me é muito útil, torna-se um empecílio para transformar meu Ser em um texto que faça um mínimo de sentido.
Pensando bem, agora me ocorreu a seguinte idéia: estou me tornando a síntese de mim mesma. É mais prático, economiza um mundo de energia gasto em existir. Então, simplesmente preservo minha existência sendo menos eu. Não preciso trocar de personalidade, apenas reduzir o esforço dispendido no exercício da dor e delícia de ser o que é...
E assim se passam os meus dias, existindo menos, numa versão low profile que, se não chega a ser uma negação de mim, com certeza não sou eu. As horas passam e a vida se torna menos densa.
O que também se torna um problema, porque se um dia eu quis criar asas e voar, não era com essa falta de densidade. Porque essa economia de mim não se traduz em leveza...
Continuo sendo uma nuvem negra, carregada, daquelas que prenunciam tempestades, quando na verade gostaria de ser uma nuvem gordinha, branca, daquelas bem ralas, que o vento carrega sem esforço, que forma desenhos suaves...

Mas, o que na verdade eu queria dizer quando comecei esse post é que, teoricamente, eu gosto de mim.
Eu me acho uma pessoa inteligente, gosto de todos os meus gostos, gosto das opiniões que tenho, das músicas que escuto, dos livros que leio, das idéias e da maioria das minha loucuras.
O problema é que o fato de gostar de mim não torna a convivência comigo mais suportável, mesmo estando nessa versão menos, a convivência ainda é dolorosa.
Um dia eu chego lá...

* O início desse post resultou de um comentário no Blog Between rupture and rapture

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Provérbios do Inferno




Se você nunca escutou Mercenárias, por favor, corra arrumar alguma coisa delas.

Sobre William Blake, incomoda, como todo bom visionário.

"No tempo da semeadura, aprende, na colheita ensina, no inverno desfruta.
Conduz o teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela impotência.
Quem deseja mas não age gera pestilência.
O verme partido perdoa o arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio
Aquele cujo rosto não se ilumina jamais há de ser uma estrela.
A eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Toma do número do peso e da medida em tempos de escassez.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse na sua loucura, acabaria se tornando um sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
Os tigres da ira são melhores que os cavalos da educação.
As prisões se constroem com as pedras da lei.
Os bordéis com os tijolos da religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a bondade de Deus.
A fúria do Leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O rugir do leão, o uivar do lobo, o furor do mar tempestuoso e a espada destruidora são fragmentos da eternidade grande demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam, as tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão, a mulher a lã da ovelha.
O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem a amizade.
O que hoje se prova outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa e o coelho olham as raízes.
O leão, o tigre, o cavalo e o elefante olham os frutos.
A cisterna contém, a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dize sempre o que pensas e o homem torpe te evitará.
Tudo que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
Da água estagnada espera veneno.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão."

POEMA DE WILLIAM BLAKE
TRADUÇÃO - PROF. PAULO VIZIOLI
SELEÇÃO DOS VERSOS - ROSÁLIA
MÚSICA - MERCENÁRIAS

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Bipolar

Finalmente o sol está brilhando...

Uma pequena pausa no meu inferno astral, no meu mau-humor, na minha vontade de sumir.
É claro que, infelizmente, o sol não possui esse poder todo.
A boa vontade com a vida tem a ver com o fim da TPM, com a visita à minha terra natal, aos amigos, às baladas.
Voltar para casa pode ser uma experiência exasperante, mas também pode ser o combustível para seguir em frente.
Eu, que na maioria do tempo não me suporto, preciso muito das pessoas à minha volta.
Amigos que mesmo estando tão distantes, me tornam mais leve...
É ótimo passar um tempo fora e perceber que algumas pessoas realmente sentiram a sua falta, realmente gostam de ter você por perto.
É bom dançar, extravasar, dar muita risada.
O tal lado leve da vida (esse estranho), que às vezes dá o ar da graça.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Thank you




"Quem teve a idéia
de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ANO,
foi um indivíduo genial,
industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar
no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui por diante vai ser diferente. "


Cortar o Tempo - Carlos Drummond de Andrade

Recebi esse poema hoje, de um antigo professor de História.
Tive aulas com ele no ano de 1987, mas foi o suficiente para me transformar em boa parte do que sou hoje.
Com ele aprendi que a História pode ser linda, emocionante, exasperante, ou uma simples mentira.
Nunca uma simples verdade.
Com ele aprendi que dizer: “Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido” possui um peso e uma responsabilidade imensos, não são palavras vãs.

Hoje quero agradecer a todas as pessoas que passaram pela minha vida e deixaram coisas positivas.
Pessoas que, mesmo sem saber, me transformaram em um ser humano melhor. Me ensinaram a amar, a ajudar, a temer, a respeitar, a perdoar.
Gostaria de citá-las uma por uma, mas poderia incorrer no grave erro de esquecer alguém, não porque foi menos importante, mas porque já não está mais perto de mim.

Então, escolho a pessoa mais especial da minha vida, em todos os momentos.
Minha mãe, que se foi há pouco, que deixou uma saudade imensa, mas que é a responsável por eu estar aqui, completando mais um ano.

Obrigada, Mãe, por nunca ter desistido de mim...



segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Belle and Sebastian




Para mim, Belle and Sebastian é como um domingo no parque...
Lindo, mas extremamente melancólico.


"Is it wicked not to care when they say that you're mistaken
Thinking hopes and lots of dreams that aren't there?
Is it wicked not to care when you've wasted many hours
Talking endlessly to anyone that's there?

I know the truth awaits me
But still I hesitate because of fear

Skipping tickets making rhymes
Is that all that you believe in?
Wearing rags to make you pretty by design
Rusting armour for effect
It's not fun to watch the rust grow
For it will all be over when you're dead

Counting acts and clutching thoughts
By the river where the moss grows
Over rocks the water running all the time
Is it wicked when you smile
Even though you feel like crying
Even though you could be sick at any time?

But if there was a sequel
Would you love me as an equal?
Would you love me till I'm dead

If there was a sequel
Would you love me like an equal?
Would you love me till I'm dead
And if there was a sequel
Would you love me as an equal?
Would you love me till I'm dead
Or is there someone else instead?"

Belle and Sebastian - Is It Wicked Not To Care?