quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Chave

Em meio às loucuras de começo de ano, quase mandei este blog pelos ares. Mas, como ele sobreviveu, tentarei mantê-lo atualizado, à medida que minhas sandices permitirem.
Porque meu processo de vida é sempre implosivo, e, por mais confessivos que meus escritos sejam, o que habita minha alma permanece encarcerado, esperando o dia em que irá criar asas e ganhar o mundo.

Estou voltando a sonhar (dormindo e acordada), o que é positivo, tanto pelo fato de poder reconhecer algo de meu inconsciente, quanto pelo fato de poder lutar por alguma coisa.
Porque, se perdi meus sonhos pelo caminho, preciso de novos, que me levem à algum lugar.

Há um ano atrás, eu queria aprender a voar. Criar asas, ser leve como as nuvens, levada pelo vento. Em lugar disso, criei uma âncora, que me prendeu em mim mesma, nas 4 paredes da minha incapacidade de lidar com a vida.

Encontrei uma chave velha perdida em algum lugar. Talvez ela abra uma porta, ou uma janela, um espaço que me permita ver o mundo lá fora.

Estarei à espera...

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Fim de ano II


"We don't need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!
All in all it's just another brick in the wall.
All in all you're just another brick in the wall."


Pequenas coisas que permitem que tudo faça sentido...

Nesse final de ano, fui para a terrinha para a temporada de eventos de formatura.
Já é difícil deparar-se com sua sua velha vida, aquela que ainda nem se deu conta de que não é mais sua.
Quando menos esperava, me vi no colégio que em estudei todo o primário, centro de boa parte das minhas memórias de infância.
Lá estava eu, olhando meu sobrinho se formando no Ensino Médio, recém-passado no vestibular; vendo o diretor e o coordenador da escola, ambos de cabelos brancos e me perguntando quando é que esse tele-transportador apareceu, porque eu ainda era aquela menina que conhecia cada canto e cada cheiro, cada pessoa que habitava aquela universo, apenas agora também envelhecida.
Senti que tudo estava fora de lugar, que aquele adolescente enorme e inseguro que acabava de ser chamado para receber seu canudo ainda era o bebê que eu passei noites e noites cuidando, que eu amava como se fosse meu...
Que eu ainda era aquela magrela que queria tudo do mundo, só não sabia como conquistá-lo, que queria ser linda, ter muitos amigos e sumir com aquela angústia que não sabia de onde vinha. Mas que, mesmo assim, tinha uma leveza de vida que a fazia voar...


Mas, me percebi adulta e duas décadas me separavam daquela criança, apesar dela estar comigo o tempo todo.

A temporada de formaturas prosseguiu, e tive a felicidade de ver meus antigos alunos, agora já homens e mulheres, terminando o segundo grau. Além de poder reencontrá-los (muitos são meus amigos até hoje, mas muitos sumiram), tive o retorno de minha experiência como professora. Pude perceber que, para alguns (poucos) deles, eu fiz alguma diferença. Não porque dei aulas geniais e ensinei a história do mundo, mas porque os ensinei algo sobre a vida, sobre ser gente nesse mundo maluco.

Porque aprendi, há muito tempo, que o professor não ensina a matéria. Ela está lá, nos livros, para quem quiser aprender. O professor ensina sobre caráter, sobre enfrentar problemas, sobre lidar com o mundo.
E isso me leva à minha última experiência do ano, como o fechamento de uma semana que me fez repensar minha profissão.
Encontrei meu mestre, aquele cara que fez com que me apaixonasse por História. Tive o privilégio de tomar um café com ele, de discutir sobre os rumos da educação, dos nossos alunos e dos nossos filhos.
Duas coisas foram incríveis nesse encontro. Perceber que ele realmente é um cara fantástico e que ele ficou feliz por eu ter seguido os seus passos.

Agora posso pensar em ser professora de novo...

Fim de ano I





Deixo 2005 com uma quase-alegria e me despeço aliviada.
2004 demorou muito para ir embora e, se 2005 passou muito rápido, mesmo assim, não via a hora que acabasse.
Coisas da vida...

Quando alcanço o que mais desejo, é quando perco o que me é mais importante.
Não há um grande ganho sem uma grande perda. Deve existir alguma lei universal estilo ação e reação que explique esse fenômeno. Tem sido assim há tempos.
Pude constatá-lo pelo com melhor clareza nos últimos anos, com os fatos mais importantes na minha vidinha-meia-boca.

Durante muitos anos, esperei avidamente a virada do 31 para traçar aquelas metas que nunca se concretizavam. Mesmo assim, continuava acreditando que, quem sabe um dia, algo realmente acontecesse.
Quando esse dia chegou, pude abandonar as malfadadas listinhas, à lá supermercado, e só viver.

E aprendi, sutilmente, um novo tipo de vida.

Dos sonhos que me restaram, tive a felicidade-sorte-benção, de realizar alguns. Mas o preço que paguei por cada um deles foi como um membro amputado. A dor de uma parte de si sendo arrancada, e a sensação de que ainda está ali, vivo, latejando.

É assim que eu aprendo, na porrada, quebrando a cara, sofrendo na carne, ou qualquer expressão que defina essa incongruência que é a vida...

Sim, sou uma sobrevivente e continuo aqui.