segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pele de búfalo

Iansã, deusa do vento iorubá, desfruta seus momentos de liberdade correndo pelos campos africanos, vestida de búfalo.

Ogum, desejando-a, rouba-lhe a pele e promete devolvê-la, desde que ela o despose.


Durante as bodas, ouve-se:


- Ogum deveria destruir essa pele maldita! - disse alguém - Como é que ele vai ter sossego com uma esposa que sai todo dia a galopar feito louca pelos campos floridos e verdejantes da África?








Obs: para saber mais, leia "As melhores histórias da mitologia africana" A.S. Franchini e Carmen Seganfredo

Feliz Aniversário

Criei este blog na tentativa de juntar meus pedaços, meus lados que eu insisto em esconder do mundo e, na maioria das vezes, de mim mesma.
Está um pouco abandonado, mas é por uma boa razão... O autoconhecimento é um processo lento, há que ter paciência. Estou gestando a mim mesma e confesso que não tenho bem ideia de como fazê-lo. 
Faço como sempre fiz tudo: fazendo...
Redundante, né? Mas descobri que a simplicidade da vida reside no óbvio e ululante, nas hipérboles e redundâncias.
Nunca houve nenhum roteiro pronto para mim, ninguém em quem eu pudesse me espelhar, um caminho já traçado. Muitas vezes esperei que alguém me dissesse o que fazer. Pensei: se eu fizer como a fulana, talvez dê certo. Não deu.


Por isso a vida toda tive que encontrar meu espaço, minha trilha, minha rota. 
É claro que não foi tão bonitinho assim... Um redemoinho, me carregando de roldão pela vida afora. Mas esse é o meu caminho e eu tenho um super orgulho dele. Tenho muito orgulho das minhas escolhas, até das mais desastrosas, porque foram minha forma de procurar meu próprio espaço.


Se conquistei alguma coisa, foi minha autonomia. Não espero e nem dependo que alguém me diga como viver, que estrada seguir, o que é certo e o que é errado. Faço minhas próprias escolhas. Já sou capaz de olhar à minha volta e afirmar: isso é o que eu quero para mim, para minha família, meu universo...


O fato de conseguir bancar minhas ações me permite inclusive olhar para o mundo lá fora e pensar: e eu seu fizesse alguma coisa para ajudar? 


Não, eu não vou mudar o mundo. Mas eu sei que se eu realmente batalhar para isso, posso torná-lo um pouco melhor. 


É o que eu faço todos os dias, quando explico para o meu filho porque ele não pode fazer tudo o que quer. Quando insisto no discurso crítico com os meus alunos, apesar de saber que apenas um entre muitos está ouvindo.


Não se engane, essa é a fala de alguém que diariamente batalha contra a força de ser igual. Não é um discurso de pedantismo, do tipo só eu estou certa.
É o desabafo de uma mulher que tem sido constantemente taxada de todos os termos pejorativos possíveis.


Esses dias estava comentando como é difícil para mim, nessa fase zen que estou vivendo, ter que me preocupar com batalhas que não são as minhas. E ouvi uma resposta chocada: nossa, isso é o seu zen?...


Pois é, esse é o meu zen, em paz comigo, desligando o modo control-freak.


Radical? Não, apenas firme nas minhas convicções. Eu realmente acredito na minha vida, e luto por ela...


Ahhh, e para os curiosos, eu tenho dois aniversários. Não é o máximo?

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Delírio coletivo

Estou passando por um daqueles momentos em que tudo dá errado... 
Fiquei alguns dias sem acesso à internet e quando ligo o meu FB, só tem desgraça.
Das que eu já estou acostumada, como as informações sobre violência doméstica, de gênero, etc.
Essas na maioria das vezes não me abalam emocionalmente, pois estou aprendendo a lidar com a indignação de forma a transformá-la em força de luta.


Tem a desgraça dos comentários descabidos de muit@s amig@s de FB: preconceito, ignorância, intolerância e, muitas vezes, imbecilidade mesmo. Esses me irritam e incomodam e, geralmente, dou um unfollow na criatura... Como sei que só tenho uns 2 amigos e umas 3 amigas de verdade, não me abalo por perder contatos virtuais e deixar meu networking mais sequinho.


Tem também a desgraça das pessoas deprimidas, que postam pequenos comentários sobre sua miséria existencial e recebem em troca um: Que é isso...não desanima! 
Nossos dias viraram um amontoado de tristeza. Andamos por aí, abandonados, sobrevivendo de migalhas de satisfação conseguidas às custas do consumo e de relações virtuais.


E isso me leva ao motivo desse post. De ontem para hoje (que foi o máximo que consegui em atualização no FB) duas conhecidas sofreram agressões no trânsito.
A primeira estava de moto e sofreu uma batida. O homem que provocou o acidente a agrediu verbal e fisicamente.
A segunda estava atravessando a rua, com o trânsito parado, quando um motorista avançou sobre ela. Ao ser questionado sobre a falta de respeito ao pedestre, o homem afirmou: " Vai nessa de pedestre, vou quebrar essas perninhas."


Esse é o mundo que construímos para nós: consumo, egoísmo, agressividade...


A falta de amor resultou em um delírio coletivo, no qual compramos satisfação para nossos problemas e inseguranças. 


E nos sentimos superiores por isso.


Ética, respeito e compaixão perdem a rezão de ser e de existir.


A coletividade é pautada pelo interesse individual, a soma de
muitos "eus". Por isso só o "meu" interesse e a "minha"  
vontade interessam.




Haja revolução para tanta falta de humanidade!

domingo, 11 de setembro de 2011

Sobre os ET's

Há muito tempo tenho me incomodado com a palavra "normal", principalmente quando ela é usada como adjetivo para pessoas ou atitudes. 
Eu, que nunca fui normal, tenho visto a cada dia essa palavra ser usada para diminuir e taxar o outro, pelo simples fato desse outro ser diferente.
Foi por esses dias que esse post ganhou vida, quando me vi conversando com uma aluna talentosíssima, a quem admiro muito, e ela afirmou: "foi quando entrei no Facebook que percebi que eu não era uma ET."

Opa! Péraí!!! 
Quer dizer que tem mais gente que se sente um ET?
Porque, óbvio, eu sempre achei que era só eu e mais uma meia dúzia...
Foi lá pelos meus quinze anos, depois de todas as crises de adolescência, de não pertencer, de não "servir", não me adaptar, que adquiri consciência de que eu simplesmente não me adequava.
E saí pelo mundo, inadequadamente procurando um lugar no qual eu me encaixasse, no qual eu "servisse". Comecei a me sentir um ET, tinha até um namoradinho que esperava comigo a chegada da Nave Mãe.

O namoradinho e se foi e a Nave Mãe nunca chegou... 
E tive que dar conta da minha inadequação e estranheza. Procurava amigos e amigas que fossem, como eu, de outro planeta. 
Mas é difícil, viu? Porque a normalidade é tão forte, tão avassaladora, que mesmo quem não é faz uma força tremenda para ser. Eu mesma tentei muito. 

Nem preciso dizer que foi um fracasso total. Primeiro porque perdi anos preciosos me dilacerando para ser algo que eu simplesmente não era e principalmente porque, quando se é um ET, não há máscara que dê jeito...

Enfim, muitos anos se passaram, muitas horas no divã, muitas experiências desastrosas de pseudonormalidade e algumas incríveis de "livre existência do ser". Pois foi quando eu me libertei que pude plenamente sentir a maravilha que é NÃO SER NORMAL.

Às vezes encontro alguns autoproclamados ET's. Meu irmão Alisson é um deles. Alma sensível e áspera, mais sensível e mais áspera que a minha. Muito mais profunda também... criatura iluminada que está errando por aqui e que dei uma sorte incrível de encontrar, veja só, no orkut.

Dessas esbarradas com esses ET's incríveis eu aprendi que a normalidade é uma "doença" e que é um tipo de preconceito cruel. Vejo meus amigos e amigas LGBTT sofrendo com a heteronormatividade e cada vez que eu leio algum relato sobre como se sentem penso: Ei! Mas eu sou hétero e também me sinto assim. Também fui excluída e perseguida, por amig@s e familiares. De forma agressiva ou sutil... 
Anos e anos sendo a vadia na rua e a ovelha negra dentro de casa fazem com que qualquer uma se sinta uma pária.

Somos todos alienígenas em nosso próprio mundo. Alguns, como eu, superam a normalidade e se orgulham disso, encontram uma forma digna de co-habitar em um mundo tão ridiculamente quadradinho.
Outros se vêem como anormais e não se encontram, nunca. Também tive alguns amigos assim e, infelizmente, nenhum deles sobreviveu para contar a sua história.

Eu sobrevivi e o que vejo hoje é um movimento lindo de libertação. Novas teorias reclamam para grupos considerados "minorias" um espaço que sempre lhes foi de direito. 
E, ao se apropriarem de si, essas ditas "minorias" ganham força e provam que dá pra ser diferente. Incomodam, e muito, os arautos da normalidade.
Que delícia! O mundo fica um pouco mais interessante cada vez que um "normal" perde o sono por conta dos ET's que estão começando a infestar o mundo.

A mim, ainda fica a questão: normal - quem o é?



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Separação

Foi lá pelos meus quinze anos que decidir que não iria casar.
É claro que eu queria, como toda a adolescente, mas os caminhos da rebeldia me fizeram questionar seriamente as finalidades do casamento.
Já naquela época era difícil encontrar casais bem-casados para me espelhar. O casamento dos meus pais, dos meus tios, o namoro das minhas irmãs, das minhas amigas...
Das minhas relações, não vou nem comentar... um fracasso total. Com o passar do tempo,a  coisa ficou mais ou menos assim: se eu não consigo ter uma relação decente (e se os homens não prestam mesmo), só me resta desencanar do casamento...
Só fui mudar essa visão lá pelos 20 e tantos, quando descobri que um primo meu, o qual eu admirava muito como pessoa (homem bem resolvido é avis rara) era muito bem casado. Eu não conhecia bem a sua esposa, mas as histórias que ele me contou sobre a relação matrimonial me mostraram que eles, enquanto casal, funcionavam muito bem.
Já tinham filhos, nessa época. Mas também já tinham festado muito, viajado o mundo e estavam construindo uma casa (quase um  Eduardo e Mônica).


Mas diferentemente da música, eles eram de carne e osso. E foi quando eu soube todos os problemas que eles passaram que eu passei a admirá-los ainda mais.


Porque ninguém conta como sobreviver a longas relações monogâmicas mantendo o "fogo e paixão". E não, não é seguindo as dicas da revista Nova que você vai aprender sobre isso. É conversando com genteim como a genteim, que compartilha medos e experiências e te ensina a ver o mundo por outro prisma.


Foi numa conversa que tivemos, na praia, que ele me contou que (já fazia um tempo), a mulher tinha se envolvido emocionalmente com outro cara. Nem sei se ela chegou a "consumar o ato", porque não era esse o ponto ali. A questão era: o que você faz quando descobre que sua mulher está apaixonada por outro?
Não vou entrar na questão feminista-machista do tema, porque esse também não era o foco...
Nada de "aquela vadia" ou "eu acabei perdoando".
A conversa centrou-se em como o casal chegou à conclusão de que ainda havia muito amor naquela relação e que valia à pena batalhar por ela...


Porque para amar tem que lutar muito... Não espere novela lacrimosa das oito, nem romances hollywoodianos água-com-açúcar. Nada disso existe no mundo da vida.
Aqui, na dura e crua realidade, tem-se que batalhar diariamente, investir, ceder, relevar, entender, lutar, mas lutar muito mesmo. Tem TPM, ciúmes, insegurança, fofoca, crises de auto-estima. Tudo isso e muito mais. Mas também tem amor e compreensão e, o que é mais importante, a certeza de que é com aquela pessoa que você quer compartilhar a vida.


Foi isso que eu aprendi dessa conversa. Passei a admirá-los ainda mais e revi todos os meus conceitos sobre monogamia, traição e essas coisas. Quando se tem uma nova perspectiva é possível criar uma história diferente.


É claro que não é assim tão simples, do tipo: "olha, tenho a fórmula, agora vai ser super fácil!", mas me ajudou mesmo a repensar um monte de coisas. E proporcionou que eu também construísse uam relação bacana.


Há alguns anos, pouco antes de engravidar do Tom, ficamos hospedados na casa deles. O Júlio, que sabia o quanto eu era fã do casal, entendeu tudo e passou a respeitá-los também. Ele também tem muito isso de olhar à sua volta e procurar "boas influências". 


Bom, contei essa história imensa apenas para chegar ao ponto importante: o tal casal-sensacional se separou.


No início fiquei frustrada, afinal quem seria o meu modelo? "Olha, eu conheço, sim, um casal bem casado", como eu costumava falar para todo mundo.
Mas passado o susto, percebi que exatamente por terem se separado é que eles continuam sendo ótimos! Porque significa que, perto de completar 20 anos de casados, perceberam que aquela relação não tem mais razão de existir. O amor acabou? Cansaram de lutar? Cansaram um do outro?


O motivo não importa, a maturidade está no fato de que eles se ouviram e se respeitaram. Continuam amigos, cuidam dos filhos, mas vão seguir suas vidas em separado. Não houve xingamentos, quebra-pau, nem rompimentos eternos. Houve uma decisão consciente, maturada durante um ano inteiro, até ser concretizada.


Para quem cresceu vendo casais se mantendo unidos por convenção social, por dependência emocional, ou por simples pirraça, é bom saber que nas relações de verdade, tem espaço para muita coisa, inclusive, para a separação.


E agora os admiro ainda mais, pois estão construindo a sua existência de uma outra forma, com muito mais respeito.

domingo, 28 de agosto de 2011

Ah, o sexo... esse ilustre desconhecido...

Faz pouco tempo que eu descobri o blog da Letícia - Cem homens
Achei a ideia boa e bem a cara do tempo que estamos vivendo... 
Porque conheço algumas mulheres que transaram com mais de cem homens, mas na época não existiam as redes sociais para divulgar.
Confesso que não teria paciência de acompanhar as aventuras da moça, mas precisamos de mais mulheres solteiras que se reconheçam e se afirmem como sexualmente ativas, e até inspirem outras mulheres a se libertarem.


Sim, pois as mulheres que são sexualmente ativas continuam sendo chamadas de vadias... Ainda existem as mulheres "pra transar" e "pra namorar"... E as pessoas, tanto homens quanto mulheres, continuam desconhecendo seus corpos e sua sexualidade.


Esse assunto veio à baila porque dia desses li  esta entrevista, na qual a Letícia afirma o total despreparo sexual da maioria dos homens com os quais ela tem se relacionado.


E, cá entre nós, toda mulher tem uma experiência desastrosa no currículo. É digno de riso... e às vezes é de chorar mesmo. Mas o grande problema é a falta de entendimento do que seja o sexo.


Aí, para ilustrar perfeitamente o problema, leio o excelente artigo da revista TPM: Faça amor, não faça pornô!


Pronto, tá explicado. No meu tempo, o problema era a falta de informação. A gente tinha que descobrir como é que fazia, fazendo... E a maioria errava feio. 
Hoje a superexposição ao sexo deixou os homens ainda mais alienados do que seja o prazer feminino. Acham que é só reproduzir o que vêem nos filmes pornôs e tá tudo bem. Performance cinematográfica, o prazer masculino e a mulher se sentindo um lixo...


E as variantes encontradas nas relações afetivas/sexuais são tantas que ninguém mais dá conta... Veja só, além das mulheres solteiras que querem poder fazer sexo casual em paz, há as mulheres solteiras que querem casar e ter filhos... E sim, há homens que querem comer todas, mas também há homens que querem uma companheira e uma família...
Tenho amigas e amigos que desejam muito uma relação monogâmica estável, mas que simplesmente não conseguem.


A "liberadas" são odiadas, por outras mulheres, mas principalmente pelos homens (como os masculinistas, que eu só descobri que existiam esses dias...)


Como resumo da ópera temos o seguinte cenário: 
1. Hoje em dia continua-se fazendo muito sexo... e de péssima qualidade.
2. Homens e mulheres continuam querendo casar e ter filhos... mas as idiossincrasias da vida moderna impedem que relações saudáveis sejam construídas.
3. Há muita gente, homens e mulheres, que não fazem sexo. E isso é um problema.


Como afirma minha amiga Geisa, não dá para transar sem respeitar o corpo e o prazer do outro.


Sem respeitar seu próprio desejo, sua paixão, seu corpo.


Existe sexo sem amor, amor sem sexo, sexo sem prazer, prazer sem sexo...


Existe gostar, amar, ter tesão...


Mas existe muito recalque para que as pessoas saibam qual dessas é a sua praia...


E o sexo fica assim: muita gente faz, muita gente diz que faz e a maioria não tem ideia de como faz.



domingo, 21 de agosto de 2011

Eu te amo, mas eu não gosto de você

Há vários dias estou elaborando mentalmente alguns posts referentes à maternagem. Nenhum deles ainda foi publicado e essa é a primeira tentativa de síntese de algo que me incomoda muito.


Desde que engravidei do Ian comecei a observar a forma como as mães se referem aos seus bebês e se relacionam com eles. Quando você realmente presta atenção ao discurso, algumas coisas ficam muito claras:


1. Muitas mães afirmam que preferem a fase "tal", pois nessa fase a relação com o bebê/criança é mais tranquila.
(observe o fato interessante de que esse mesmo argumento é utilizado em diferentes situações)


- Há mães que curtem muito a gravidez, a barriga, a espera e a fase do bebê até um ano. Adoram amamentar, curtir o baby, aproveitar o carinho contemplativo e o amor incondicional que as inunda quando veem seu neném recém-nascido dormindo. Infelizmente, essa curtição toda passa, talvez na fase de engatinhar ou de começar a andar, ou talvez dure até os dois anos, quando as crianças já começam a manifestar vontade própria.


- Há mães que sofrem muito na fase bebezinho, com os choros e cólicas e, principalmente a incompreensão das vontades do bebê. Sentem-se frustradas por não conseguirem atender às necessidades de seus filhos e filhas e até um pouco impotentes, pois as crianças recém-nascidas não reagem às suas ações da forma que esperam. Nesse caso, o sofrimento inicial é superado lá pelo o segundo ano de vida, quando as crianças já possuem capacidade de expressar suas necessidades e demonstrar reações inteligíveis.


2. As mães acabam invariavelmente se vangloriando das conquistas de seus filhos e filhas.


- Essa é clássica e mais forte do que qualquer mãe: quem resiste ao impulso incontrolável de contar todas as coisas maravilhosas que seu rebento fez? No entanto, essa superexposição dos talentos e habilidades infantis escode um outro aspecto: você é capaz de se orgulhar do seu filho só porque ele existe? Você ama sua prole incondicionalmente, independente das suas realizações? E se a criança não tiver nenhum talento especial e, além disso, tiver algum tipo de dificuldade, como é que você vai se portar na hora de estabelecer o ranking?


3. Quando os filhos crescem, muitas mães não conseguem mais se relacionar com eles.


- Isso pode começar lá na pré-adolescência dos 5 anos. Aquela fase em que a criança começa a desobedecer, testar insistentemente os limites e a dar aqueles pitis vergonhosos em locais públicos. Nesse caso, o problema também tem a ver com a publicidade... As pessoas estão vendo que seu filho está "reinando" e você, além da frustração de não conseguir se relacionar com a criança ainda passa vergonha na frente dos outros.


- Essa situação pode aparecer quando a criança não quer mais comer nada ou só quer comer "besteiras", quando não quer vestir a roupa que você escolheu, ir à casa da  "sua" amiga brincar com os filhos dela, ficar bem comportadinho...


Estes itens, entre outros milhares que existem, são os mais óbvios no quesito "só te amo quando você faz o que eu quero". Escolhi-os porque são os que eu mais observo no comportamento de amigas e conhecidas. 
Aí você pode se perguntar: Ah, tá, você é a única no mundo que não faz nada disso?


Comigo a coisa funciona assim: desde que o Ian nasceu, comecei a me trabalhar no sentido de perceber e interiorizar que ele é um indivíduo autônomo, outro ser, independente de mim. Sua existência transcende a minha e apesar de todo o nosso vínculo eu não posso fazer nada a não ser amá-lo.


É claro que eu o educo, ensino e oriento, da melhor forma possível. E que nem sempre o resultado dessa minha ação é o esperado, mas a grade questão é que eu me esforço ao máximo, para permitir que ele exista. Desenvolva sua própria personalidade e descubra seu próprio caminho. 


Com o Tom, procuro agir da mesma forma. Trabalho em mim a expectativa de ter um filho perfeito e de realizar minhas próprias vontades (ou frustrações)  através dele. É um grande desafio, mas me sinto mais forte. Foram dez anos de exercícios diários de amor e liberdade.


Hoje vivencio o desafio da pré-adolescência do Ian. E da possibilidade dele se tornar uma pessoa com uma personalidade diferente da minha... 
Isso sim é amor incondicional, o resto é "pose".


Em tempo: a argumentação exposta aqui vale para todo o tipo de relação afetiva, principalmente a do amor romântico. As pessoas continuam amando aquele ser que elas gostariam que o outro fosse... Relacionam-se com expectativas, com sonhos, com desejos e não com a pessoa real. Elas amam, e muito, mas não gostam de verdade...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mamando, parindo, vivendo...

Passado o turbilhão da Marcha, volto a me apropriar de mim e a repensar minhas coisas de maneira mais objetiva. Há uma semana do Mamaço Mundial, em comemoração à Semana Mundial do Aleitamento Materno, me lembrei de um post que comecei a escrever, no blog velho, e que ficou perdido...


Falava sobre a sexualidade da mãe e todos os seus mitos (ou da total ignorância de homens e mulheres...)


Bem, ao revindicar o direito de amamentar em público, me pus a pensar porque será que o ato de amamentar-alimentar um bebê pode causar constrangimento em alguém?


Ao fazer essa pergunta, não estava realmente preocupada com a resposta, afinal tem louco pra tudo, mas sim com o contexto do incômodo.


Primeiro, pensei sobre a exposição do seio, que seria a causa mais óbvia do tal constrangimento. Deixando de lado comentários imbecis como os do pessoal do CQC ou freudianos como os do João Pereira Coutinho, foquei imediatamente na relação corpo-objeto à qual estamos sujeitas atualmente. Nessa linha de raciocínio, um seio exposto obrigatoriamente exige um olhar sexual. A mulher não tem autonomia para expor o seu corpo, construído através do olhar masculino, se não houver a função de seduzir.


É claro que esse pensamento é reforçado socialmente, entre homens e mulheres, pelos padrões de comportamento condicionados e condicionantes à "condição" feminina. Pois ao nos constituirmos objetos, não temos direito de optar por outra relação com o corpo.


Vou desenvolver de outra forma: a mulher possui diferentes formas de prazer físico, que não apenas o sexual e, o que é mais importante, que não apenas o que advém do "olhar" masculino (aqui incluído todas as etapas do jogo de sedução, até o ato sexual em si).


Eu, que tive dois filhos nascidos de parto natural, entendo muito das diferentes sensações de prazer que o meu corpo me permite vivenciar e que não dependem e, o que é mais importante, não têm relação nenhuma com o prazer sexual. Quando se comenta a existência de um parto orgástico os puritanos de plantão já se escandalizam, pois associam a experiência à um orgasmo sexual "comum"...


A questão do tipo de prazer que se pode sentir ao parir um filho de forma plena e natural está diretamente relacionada à força dessa experiência, que no nosso caso (de viventes em uma cultura tecno-industrial), é uma experiência ainda mais forte, pois não faz parte do nosso "background"... Não temos registro histórico coletivo, memória social ou vivência do que seja esse contato supremo com a natureza em toda a sua plenitude. Um parto sem intervenções, realizado com segurança e amor, permite a liberação de uma quantidade imensa de ocitocina. Isso sim é uma experiência orgástica... 


Na mesma linha, a amamentação também gera prazer, pois a liberação da prolactina e da ocitocina inundam o organismo da mãe e do bebê... Mais uma vez, não é um prazer "sexual" no sentido da cópula... É um prazer fisiológico de doação, de amor incondicional.


Difícil é, para homens e mulheres condicionados ao comportamento (sexual e social, por que não?)  regrado, entender e aceitar essa "autonomia" do corpo feminino.


Ah, então o corpo feminino produz prazer sem a atuação masculina, o insuperável falo? Sim, as lésbicas bem o sabem...


Mas o corpo feminino produz prazer intenso, sem conotação sexual? Sim, e basta uma pequena mudança de "paradigma" para se abrir a essa experiência maravilhosa.


A natureza é pródiga e nem deveríamos precisar reafirmar isso constantemente. Mas como deixou de ser uma verdade, deixo registrado aqui. A natureza é pródiga, o corpo humano é perfeito. Basta confiar.


Termino o post com uma pequena provocação: a amamentação é, também, um ato subversivo - anticapitalista. Para alimentar o seu filho e mantê-lo saudável, você não precisa de dinheiro, produtos industrializados, tecnologia, fórmulas mirabolantes. 


Você só precisa de amor,  boa vontade e paciência.


SEMANA MUNDIAL DO ALEITAMENTO MATERNO.

Salvem a Infância!


Há muitas formas de se praticar um ato de violência contra uma criança. Além das mais óbvias e chocantes, escolho hoje a violência simbólica: todos os dias matamos seus sonhos.

Ensinamos às nossas crianças que o papai noel e o coelhinho da páscoa não existem, pois as crianças precisam "crescer" e abandonar o mundo da fantasia (isso é coisa de bebê).

Ensinamos que devem abandonar o desejo de ser astronauta ou bailarina e se concentrar em estudar para ter um bom futuro, uma profissão.

Moldamos seus comportamentos e as condicionamos sua existência à nossa aprovação. Em nome do "eu sei o que é melhor para você" exigimos que sejam os melhores alunos, atletas, musicistas...

Despejamos nossas frustrações e queremos  que nossos filhos e filhas realizem tudo aquilo nós mesmos não fomos capazes...

Em minha casa, o Calvin é quase um membro da família... Temos todos os seus livros e acompanhamos sua viagem pela infância... somos coniventes em todas as suas aventuras. Por isso meu choque ao me deparar com essa tirinha... 

Porque é isso que todos os dias acontece com as crianças que não são compreendidas e amadas em toda a sua maravilhosa singularidade. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Libertação

Comecei a preparar um post sobre a Marcha, mas desisti porque percebi que não conseguirei narrar de maneira condizente tudo o que aconteceu lá. 
Você pode ler posts incríveis e super detalhados aqui e aqui. O vídeo você confere aqui.


Vou escrever apenas o que a Marcha representou para mim.


Sou uma inconformada. Quase sempre o fui (confesso que houve meus momentos de "largar os bets", como dizemos aqui em casa) e de tempos em tempos minha revolta vem com toda a força. 
Nem preciso dizer que estou em um destes momentos, tentando dar conta do mundo-cão que se configura à minha volta.


Por ter que confrontar todos os dias uma educação pseudoliberalcastradoraemanipuladora acabei me acostumando a fazer as coisas do meu jeito sem ligar muito para as consequências. 
Adolescência conturbada, momento de testar os limites. Todos: vida, morte, sexo, loucura, política, ação e reação, amor, solidariedade, ódio, muito ódio.


Ódio de um mundo implacável que não permite a existência do outro, que se configura eternamente na luta do mais forte contra o mais fraco, corrompido por um poder que beneficia meia dúzia de viventes e oprime todo aquele que não faz parte do Mainstream.


Dito isto, volto à Marcha. Eu sabia que estava empreendendo um exercício de engajamento, de comprometimento. Um compromisso social. 


Quando você toma a decisão de agir, você deixa de agir para si e passa a agir para o mundo.


Então, eu tomei coragem e fui: fui gritar ao mundo que SOU VADIA, que não vou mais me calar frente ao mundo que condiciona a mulher, que agride o outro, que normatiza comportamentos dentro da "perversa lógica do capitalismo".


De megafone em punho, gritei bem alto: "sexo anal pra derrubar o capital".


Porque precisamos nos libertar, com urgência.


Eu, diariamente, estou buscando me libertar de meus próprios preconceitos, dos meus comportamentos arraigados que não condizem mais com a minha filosofia de vida...


Seja a mudança que você quer no mundo. Eu quero que as mulheres deixem de ser classificadas de acordo com a sua conduta sexual. Eu quero que as mulheres deixem de ser violentadas e agredidas. Quero que as meninas sejam criadas em segurança, com uma sexualidade sadia...


Ao dedicar meu tempo e energia para a realização da marcha, me pus inteira ali. Revi todos os meus fantasmas, meus medos, meus traumas. Enquanto estava marchando, pensei em todos os homens que interferiram na minha relação com a minha própria sexualidade. Pensei na minha família e em todos as críticas que receberia por estar participando de uma manifestação  dessa natureza.


A cada grito que dava, libertava uma parte de mim que estava aprisionada. Gritei, gritei muito. Cantei, dancei e chorei. Compartilhei. Vivi uma experiência coletiva incrível, única, inédita.
Abracei o centro da cidade mais careta do universo...


E me libertei.


Agora, só ficou o vazio.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Porque eu vou participar da Marcha das Vadias CWB





Faltando exatamente uma semana para a Marcha decidi elaborar algumas coisas e fazer um exercício de síntese.
Hoje temos no evento do Facebook 8.482 pessoas afirmando que irão participar da Marcha, 11.388 pessoas que disseram que não irão e 2.291 que afirmam que talvez participarão.
Mesmo que tenhamos apenas umas 50 pessoas de fato no dia, mais de 20.000 homens, mulheres, gays, lésbicas, jovens, entre outros, refletiram sobre o movimento na cidade de Curitiba, no país e no mundo.


Alguns são bem desavisados, não tem a menor ideia do que está acontecendo; outros sabem exatamente do que se trata e mesmo assim se recusam a participar de tal semvergonhice...


Eu, que estou na vibe feminina e feminista desde o início do ano, ampliei meus horizontes e fui procurar entender um pouco sobre o mundo que nos cerca, nossas relações de gênero e todo o tipo de violência a que estamos sujeitas em nossas relações. 


Deparei-me com a produção acadêmica engajada e militante, a produzida na "torre de marfim" e o senso comum das redes sociais (e convenhamos que nossa mídia oficial também dá um show de senso comum e, o que é pior, de machismo mesmo).


Então, nessas minhas peregrinações pelos textos referentes ao universo feminino, descobri que o corpo da mulher é submetido historicamente e que no século XIX tornou-se "objeto de censuras que traduzem as obsessões eróticas de uma época e se inscrevem nas imposições da moda", como afirma Michelle Perrot


Alguma semelhança? As obsessões eróticas de nossa época aparecem na fala do policial canadense, na piada do Rafinha Bastos, na entrevista do Bispo de Guarulhos ou no comentário da deputada Myrian Rios (você pode ler uma ótima análise de ambos aqui). 


Nossa sexualidade ganhou a esfera pública e todos tem alguma opinião a respeito. Seja quanto ao sexo consensual, ao uso do corpo, à exposição do corpo, ao estupro, à homoafetividade... 


E as opiniões que expressam atualmente revelam um padrão: o da heteronormatividade, que trata da identidade de gênero e suas variações não aceitas socialmente. Não há espaço para a sexualidade feminina, a menos que esteja submetida  à masculina. Não há espaço para a sexualidade homo, bi, trans  ou pan. Também não há espaço para a autonomia sobre o corpo. 


SUBMISSÃO - esta é a palavra que regula nossa ordem.


Confesso que alternei choque e indignação ao me deparar com tal realidade, mas a Marcha realmente ganhou vida para mim quando cheguei ao ponto fundamental do movimento: a violência contra a mulher. 


Mais do que pensar sobre a violência sofrida pela mulher branca, hetero, de classe média (que sou eu), passei a refletir sobre a violência sofrida por todas as mulheres. Então descobri que há anos as mulheres estão marchando e pude pensar bastante sobre por que existem mulheres estupráveis


Foi incrível discutir com o Júlio sobre isso, pois somos ambos frutos da mesma criação e dos mesmo preconceitos. A prostituta pode ser estuprada porque está sendo paga para isso? 


NÃO, NINGUÉM PODE SER ESTUPRADO!!!!!!!! Nem crianças, nem lésbicas, nem gays, nem travestis, nem empregadas domésticas, nem alunas de faculdade.


Esse é o ponto: absolutamente nada justifica a violência!!!!!!! 


Esse foi o resultado de minha reflexão. Tão óbvio, mas tão doloroso pensar sobre isso quando se percebe a verdadeira face da violência, quando deixa de ser um conceito abstrato e passa a falar de você. 


Foi quando cheguei aos números da violência em Curitiba. Números desencontrados, desatualizados, inexistentes, mas que revelam que existem casos de estupro em TODAS as faixas etárias de 0-60 anos ou mais. 


Isso mesmo, temos casos na faixa até 1 ano, de 1 a 4 anos, de 5 a 9 anos... E a faixa com maior número de registros é de 10-19. E maioria dos casos envolve alguém do círculo de relações da família (entre parentes e amigos).


Esses são alguns dos motivos pelos quais eu vou participar da Marcha. 
Há muitos outros. 
Não quero mais fazer parte da estatística das pessoas que muito reclamam e nada fazem, que se assombram com estes números, mas continuam acobertando casos de violência. Não quero que meus filhos cresçam em um mundo que justifica a violência contra o outro (seja ele quem for).


Quero exigir das instâncias de poder público ações concretas para reverter esse quadro. 
Quero exigir da sociedade discussão sobre esses temas, porque enquanto continuarmos sendo tratadas como vadias, enquanto pessoas públicas continuarem declarando seu preconceito impunemente, enquanto continuarmos reproduzindo condicionamentos sociais sem refletir sobre eles, continuaremos a ser violentadas, de todas as formas possíveis.



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontros e Desencontros

Há muito tempo me incomodo com o vai e vem de gente na minha vida. 
Fico inconformada com o fato de que pessoas extremamente importantes na minha história simplesmente desaparecem. Sim, sei que preciso fazer um exercício de desapego, mas sou assim mesmo, apegada...
Durante um bom tempo me senti culpada por não manter um contato constante com os meus amigos. Mudança de escola, mudança de cidade, mudança de estilo de vida... Depois de muito sofrimento percebi que em vez de me sentir a última das últimas por não ter mais os amigos por perto, deveria agradecer pelo que vivi com eles.

De cada um deles eu carrego uma lembrança, ou várias. Muita festa, muito choro. 
Alguns são importantes porque sempre estiveram lá. Outros, porque apareceram naquela hora que eu mais precisava. Uns me ensinaram, outros me deixaram ajudá-los.

Algumas amizades se esgotaram porque eu parti, outras porque insistiram em partir (em todos os sentidos do termo).

Quando alguém muito importante sai da minha vida, sofro, sofro mesmo. Mas às vezes me surpreende e um novo encontro acontece. É assim que tem sido.

Neste processo de reapropriação do self, nome bonito para "colar todos os meus pedaços em mim" estou também usufruindo a possibilidade de agradecer aos que foram, aos que ficaram e aos que voltaram. E até mesmo àqueles que apenas deram uma passadinha na minha existência...



E como isso é só uma reflexão, termino com uma cena linda, que diz tudo e tem a trilha perfeita...




terça-feira, 5 de julho de 2011

Você pode escolher o parto que quer e pode ter – o nascimento do Tom em casa




Desde que decidi que teria outro filho pensei em ter um parto domiciliar. Pelo fato de já ter feito um parto (quase) natural, me sentia bastante segura com relação a essa opção.
O primeiro passo foi convencer o Júlio:

- Veja, Amor, estamos nessa linha mais “natureba” e acho que um parto hospitalar vai contra tudo o que estamos vivendo. Todas as mudanças dos últimos anos (alimentação o mais natural possível, trocar a alopatia pela homeopatia, abandonar definitivamente os analgésicos, muita terapia, para deixar as neuroses de lado...) estão nos encaminhando para isso... Você não acha?

Por incrível que pareça, ele topou e embarcamos na “viagem” do parto domiciliar. Decidimos não contar para ninguém, porque sabíamos que era algo “muito radical” e que o medo de que algo desse errado poderia nos contaminar.

Primeira questão: quem será o médico que fará o parto? Depois de alguns contatos, chegamos até a doutora Betty.

Eu já fazia um pré-natal no hospital militar, com o doutor Álvaro, mas só para pesar e medir. A doutora Betty me ajudou na dieta (para evitar anemia), receitou florais, indicou a yoga e fez várias considerações bacanas. Mas com relação ao parto mesmo, nada.

Quando eu já estava no 6º mês participei de um encontro de grávidas no espaço Aobä e foi lá que tudo mudou. Nesse dia, o tema era o parto natural e elas falaram tudo sobre ocitocina, adrenalina, expulsão, respiração, dilatação... E a Thalia ainda fez uma dramatização do comportamento da mulher na hora do parto. Eu saí de lá maravilhada e comentei com o Júlio: por que é que ninguém me falou isso antes? Que a pior posição para parir é a vertical, pois impede a completa abertura do quadril para a passagem do bebê. Que dói mesmo e que a dor tem um papel importante no processo hormonal. Que aquela hora que a gente acha que vai morrer e pede “peloamordedeus alguém tire esse bebê daí que eu to morrendo” é a hora da expulsão mesmo e o babe já vai nascer...

Passamos o final do ano na praia e quando voltei de viagem, na consulta de rotina, o balde de água fria: veja bem, o bebê virou na última eco... tudo bem que ele já desvirou, mas agora você já está com idade e o seu primeiro parto já foi há muito tempo... Ah, ta, não posso fazer o parto em casa porque eu fiz 35 anos no mês passado e agora estou velha para parir?

Saí de lá, como boa grávida, me sentindo a última das últimas... E fui para outra reunião da Aobä. Contei a conversa com a médica e disse que iria procurar opções... Ao sairmos, conversei com o Júlio: e se a gente fizesse o parto com eles? Gostei tanto de todo mundo, a proposta tem tudo a ver com o que a gente pensa... E o Tom poderá nascer em casa...

No dia seguinte a Luciana (coordenadora do espaço) me ligou para dizer que eu não desistisse e eu disse que queria contratá-los para o parto.

A partir dali, tudo lindo! Conversas com toda a equipe (Luciana, Mario, Thalia e Andréa) sobre o que é o parto ativo, o que implica a mudança de paradigma de que quem faz o parto É A MÃE e não o médico, a enfermeira, a parteira... Fiz algumas ecos para garantir que estava tudo ok (porque nas últimas semanas a gente fica neurótica de tanta ansiedade) e fizemos consultas em casa mesmo.

Fui a mais uma reunião de grávidas e levei para casa a bola de pilates (que é a salvação das contrações!). Eu estava sentindo muitas dores naquela semana, mas era o movimento do Tom dentro da barriga. Ele já estava encaixado e “virava” de um lado para o outro, o que doía MUITO. Dois dias depois da reunião eu acordei com dor. Como já havia sentido isso, calmamente comecei a contar. Uma, mais uma, mais uma. Levantei, peguei um celular que estava próximo e fui contanto (sem óculos no escuro é dureza...) 05:32, 05:43, 05:54, 06:05...

Ai, acho que é agora. Acordei o Júlio, avisando: Amor, “amora”... O quê? Tá brincando!!!... Não, amor, ta na hora... E o que é que eu faço? Passa um café e vamos arrumar as coisas.

Levantamos e começamos a preparar o quarto. O Ian estava dormindo conosco, então o passamos para o quarto dele (reclamando: por que o passeio noturno?...) desmontamos a cama e colocamos a nossa na posição para dar lugar para a banheira que seria montada no quarto mesmo. Ligamos o playlist Rockaby, com versões de caixinha de música das nossas bandas favoritas: Ramones, Radiohead, Metalica, Bjork, muito rock-bebesístico para ele nascer calmo ao som de boa música.

Quando estava tudo pronto, liguei pra Lu: qual é o tempo das contrações? 11 minutos. Já tomou banho? Não. Então toma o banho e vê como ficam as contrações, vou arrumando tudo.

Saí do banho e liguei de volta (já eram umas 7:20). Coloquei um camisetão, shorts e meias e fiquei sentada na bola de pilates, abençoada, balançando para aliviar as contrações. A Lu e o Mario chegaram e começaram a preparar a banheira. O Ian ficou um pouco ansioso e achamos que era melhor ele ir para a natação, pois eu também estava começando a ficar incomodada...

Decidi me esticar um pouco no colchão, alongando as costas e o Júlio fez massagens na lombar, mas logo voltei para a bola. A banheira estava montada e a Lu por ali, com o Ayssô, seu bebê que tinha pouco mais de um mês, me observando, mas sem interferir.

Quando começou a doer muito mesmo, perguntei se já podia entrar na banheira. Não estava cheia, mas a Lu disse que ia ajudar a aliviar a dor. E como ajudou! Tirei a roupa, entrei na água, super quente, e nas primeiras contrações a bolsa rompeu! Senti começar expulsão e avisei: ta na hora.

Comecei a me incomodar com a dor e decidi ficar de joelhos. Fiquei apoiada na borda da banheira e o Júlio do lado de fora, na minha frente segurando os meus braços, fazendo força junto comigo. As contrações da expulsão foram rápidas e logo senti a cabeça do Tom sair. Emocionado o Júlio pergunta: o que é que eu faço??????? E a Lu: nada, não faz nada.

Ele me apertou segurando as minhas mãos, com os braços sobre os meus e a gente fez mais uma força juntos. Na próxima contração eu já senti o Tom girando enquanto o seu corpinho ia saindo. A Lu o pegou na água enquanto eu sentava e o colocou no meu colo. Eu quis dar o peito, mas ele estava tão relaxado que não pegou. A Lu fez uma massagem e aspirou o nariz, soprando um pouco de ar, pois na minha movimentação ele poderia ter aspirado a água da banheira. O cordão ainda não tinha sido clampeado, então sabíamos que ele estava recebendo oxigênio. Logo ele abriu os olhos e ela o devolveu para mim e então ele mamou.

Tive que sair da banheira, por causa da expulsão da placenta e só então lembramos de olhar as horas! (9:45) Fui “transferida” para a minha cama, com ele nos braços e fiquei recostada, ele de olhos bem abertos, mamando e observando tudo! Logo chegou a Andréa, enfermeira, que ajudou a decantar a placenta, cortar o cordão e deu os pontos na laceração da pele da vagina.

O Ian chegou em seguida e ficou apaixonado! Mas ele é uma gracinha! Dizia todo emocionado...

Ficamos umas duas horas nessa energia. O apgar foi feito no meu colo. Ele foi pesado e medido em nossa cama. Eu e o Júlio demos o primeiro banho (que foi uma odisséia, porque era muita mão dentro do balde para segurar o pequenino).

E assim o Tom veio ao mundo: em casa, sonhando, com toda a segurança e tranqüilidade de não depender de uma intervenção para forçá-lo fora do seu tempo. Todos nós saímos fortalecidos, empoderados. Uma força inacreditável nos uniu, com laços bem fortes, de amor e de confiança
.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Resposta a quem acha que a Marcha das Vadias devia ter outro nome

Bom, estava eu confabulando sobre o meu próximo post "porque eu vou na Marcha das Vadias" e esperando arrumar um tempinho para escrever quando recebo a seguinte mensagem no blog da Marcha:


"sou a favor do movimento e estou mobilizando minhas amigas e amigos a participarem do movimento. Porem estou notando grande hesitaçao por parte deles e sinceramente, inclusive da minha parte, devido ao nome do movimento.  Estamos no Brasil, e como todos sabem, o nível intelectual das pessaos é baixissimo.  Acho que foi tb por isso que no RJ nao tivemos muito apoio.  Acho que mais importante do que fazer parte de um movimento mundial,  usando o mesmo nome que esta sendo usado em países com nível educacional mais alto que o nosso, é trazer um grande numero de pessoas as ruas.  Porem muitas mulheres nao querem ser vinculadas ao nome Vadias.  Por isso, ai invés de adotarmos o nome vadias (afinal nao sao so elas vitimas de estupros), nao seria melhor  adotar NAO A VIOLENCIA CONTRA A MULHER ?? 
com certeza mais pessoas iriam aderir ao movimento.
agora vai de vocês decidirem se é mais importante fazer parte de um movimento mundial sem sucesso no Brasil ou conseguir a atenção da mídia pelo numero de pessoas aderidas ao movimento
o Brasil é um país machismo, nos chamando de vadia, nao ajudara em nada ( estou ciente de pq este nome esta sendo usado, mas com certeza nao é adequado em nosso país)."








Confesso que tive que me segurar para não responder imediatamente desancando tal criatura. Mas, pessoa equilibrada que sou, aguardei um tempo, maturei...


Hoje cheguei em casa, tomei "meus bons drink" coloquei uma Maria Bethânia (Lama) e escrevi:




"Falo em nome de todas as organizadoras, pois debatemos muito a respeito do nome da marcha. Entendo o seu ponto de vista e concordo que ele seja o ponto de vista da absoluta maioria da população curitibana (homens e mulheres, jovens e pessoas mais velhas).
Entendo também a sua preocupação com relação à adesão popular das massas. 
No entanto, achamos que levar às ruas o termo vadia é imprescindível para a discussão sobre a violência contra a mulher. Pois essa violência está diretamente ligada às relações de poder estabelecidas no universo masculino. E é esse exercício de poder que faz com que os homens nos chamem de vadias para nos diminuir, para regular nosso comportamento sexual e para desmerecer nossa capacidade de articulação.
Acho também que a discussão sobre a violência deve obrigatoriamente abordar a prostituição e, se falamos em nome das vadias "oficiais" não podemos mascarar a situação.
Entendo que para mulheres brancas, heterossexuais, de classe média seja muito difícil ressignificar o termo vadia e discutir a questão de gênero que envolve os preconceitos contra a mulher (principalmente se for transsexual ou lésbica).
Agradeço a educação com a qual você expôs o seu ponto de vista, pois temos recebido muitos ataques extremamente cruéis e agressivos, que impedem o debate.
Aproveito também para tranquilizá-la quanto ao alcance da marcha, pois mesmo com um nome tão polêmico, já conseguimos agregar as bandeiras de grupos que estão há anos na luta contra a violência. Todas as ongs que trabalham com mulheres, GLBTTs, prostitutas, crianças em situação de risco de violência, estão nos apoiando e irão participar da Marcha.
E o melhor de tudo isso, fomos amparadas e acolhidas pela delegacia da mulher e a secretaria municipal de saúde, órgão do poder público que trata diretamente de todas as questões de violência física e sexual.


Por isso, gostaria de convidá-la a repensar sua crítica ao nome e a juntar-se à nós. Nós incorporamos o nome vadia à luta e hoje nos orgulhamos de sermos chamadas assim, porque para quem está acompanhando todo o processo desde o começo, vadia virou sinônimo de mulher que luta, que não se cala."




Sei que não falei nada além do óbvio e ululante, mas acho que essa é a grande diferença de quem tá acompanhando a luta e quem pegou o bonde andando: nós estamos munidas até os dentes de argumentos, dados, estatísticas, discussões, horas e horas de análise, desconstruções, apropriações, releituras e fogo, muito fogo!


Quando surge um questionamento tão primário quanto este, não dá nem vontade de responder.


Mas é isso, a luta está apenas começando. Seremos apedrejadas, crucificadas... Soubemos inclusive que seremos literalmente ovadas, e provavelmente processadas, pois as pessoas não admitem que alguém diga: SIM, EU SOU VADIA!


Eu sou vadia, e você?