quarta-feira, 29 de junho de 2011

Fugir da zona de conforto

Há dez anos, quando engravidei, minha vida mudou radicalmente.
De mulher livre, leve e louca, me transformei em mãe solteira... E tive que dar conta disso, com muita humildade e reflexão. Se eu tinha certeza sobre os aspectos que eu não queria impor ao meu filho, tinha sérias dúvidas sobre de que forma iria educá-lo. 
Felizmente pessoas bacanas apareceram para me guiar nesse caminho maternal e, para minha grande surpresa, minha própria mãe, maior crítica ao meu estilo libertário de ser, passou a apoiar minhas escolhas como mãe (e depois de um certo tempo, até fazer propaganda disso)...


Mas os processos são assim mesmo, dependem de maturação, avaliação e, no caso da maternagem, doação...


Por isso, optei por me dedicar de corpo e alma à construção do meu lar. E quando me constituí mãe, pude me constituir esposa de alguém. Deixei de ser mãe solteira e encarei um relacionamento monogâmico estável no melhor molde tradicional.


E por dez anos andei pelos caminhos da família, fiz opções em prol do bem de todos, e do meu, é claro...


E confesso, é um mundo seguro. 


É tão fácil recolher-se ao santuário do seu lar, desligar a tv, cancelar o jornal, e viver de brincadeiras, cantigas, cuti-cutis e muitas risadas.


Seria uma realidade perfeita, se no mundo lá fora não estivesse rolando a dura realidade do "homem é o lobo do homem". Um mundo de barbárie, crime, fome, miséria, violência...


Como é que é possível criar um filho em uma redoma de vidro, brilhante e colorida, e depois soltá-lo aos leões?


É claro que isso me incomodava, mas não a ponto de me fazer abandonar o conforto da minha vidinha perfeita.


Aí, veja só, estou lá, meu blog sem atualização há mais de um ano, já tinha saído do orkut, no twitter não aparecia há seculos, dou umas passeadas no Facebook e encontro, no perfil do meu querido irmão Alisson, este texto. O título, Existem mulheres estupráveis?, me chamou a atenção, mas confesso que não li.


Passado uns dias, a linda Gabi (ex-aluna) posta esta notícia sobre a slutwalk do Canadá. 


"Não se vista como uma vadia se quiser evitar ser estuprada".


O quê? 


Voltei ao post das mulheres estupráveis e entendi tudo. A culpa do estupro é da mulher: ela pediu, procurou e até consentiu (mesmo dizendo não). Estamos falando de poder, de violência, submissão, exploração... 


Do corpo-objeto que "pertence" a alguém...


Eu, que sofro do mal da ingenuidade, pensei: ué, mas a gente não queimou sutiã, não atingiu autonomia e respeito? E agora vão dizer que a minha roupa justa é um convite ao estupro?


Mal sabia eu que era só o caso de mais uns dias para a Isa (amiga de maternagem) mandar esse post.


Socorro! A mãe não pode mais amamentar em público? #runtothehills


Ok, é o fim dos tempos, só resta sentar e chorar.


E assim, eu, santa-mãe decidi lutar pelo sagrado direito de amamentar. Entrei na comunidade do Mamaço Virtual, do Mamaço Curitiba e me envolvi até o último fio do meu sling. Eu que nem amamento mais. No dia, estava lá, acolhendo, apoiando, slingando e dançando.


No final, a querida Lud apareceu, curtiu um picnic na praça e soltou: estamos querendo fazer a Marcha das Vadias.


Opa! Tô dentro!


Na semana seguinte, tive esse diálogo bizarro com a minha amiga Gilce:




- Amigalhes, desculpa aí, mas eu lembrei de você: marcha das vadias em São Paulo!
- Pois é, enquanto não rola por aqui, eu fico com o Mamaço... porque você sabe que pra mim a luta é a mesma.
- Sei sim: Mother Fucker
- Isso aí




E agora tô aí, vadiando... Organizar um evento polêmico dá trabalho. As reações são violentas, os ataques diretos. 


Conversei com o Júlio e diariamente reforço a importância de lutar por um mundo melhor.


Sair da zona de conforto. Eu já fiz isso.


Agora estou na zona de guerra, na rua, marchando...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Saindo do armário

Boa noite!
Venho ao mundo hoje me revelar. 
Saio do armário para assumir que sou muitas. 
Tenho muitos lados, alguns que eu muitas vezes desconheço...
Mas estão todos aqui. 
Então, abrindo as portas empenadas e carcomidas exponho cada um dos meus lados que irão compor as minhas postagens daqui para diante.


1. O lado self: o lado mais obscuro e camuflado. Esse eu escondo até de mim. Mas é o meu lado contestador, inconformado, transformador, teimoso, polêmico...


2. O lado mulher: feminista, feminina, indignada, batalhadora, doce, sonhadora, e todas essas coisas que eu acho uma grande bobagem, mas que estão lá (e agora estão aqui dentro).


3. O lado mãe: amorosa, dedicada, esforçada, engajada, superada, e todos esses adjetivos que nem existem, mas que passam a fazer parte da gente quando pare um filho.


4. O lado professora: idealista, esforçada, resiliente,  guerreira...


5. O lado dancing queen: (ou tequila woman para os íntimos), boêmia, dançarina, arruaceira, botequeira, festeira, e todas aquelas coisas que a minha mãe dizia que moça direita não podia ser...


É... Todos os meus lados juntos dá tudo isso e mais alguma coisa...


Mas porque fazer todo esse drama, você se pergunta?


Veja bem, fui criada em uma família tradicional, branca, católica, classe média... 
Clássica estrutura conservadora camuflada de liberal...


Um vida inteira de mensagens dúbias, do tipo "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" deixaram como saldo culpa... muita culpa... e muita coisa embaixo do tapete.


Fiz uma primeira tentativa de blog (veja aqui), mas era só mais um jeito de me camuflar.


Então, agora grito ao mundo: estou me libertando!


Aí, mulher liberada que sou resolvo por esse blog no ar e ver o que é que sai.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mamaço - o que você não vê por aí

Apresentei meus argumentos sobre a discussão acerca dos usos e abusos do corpo feminino sem imaginar que a coisa toda tomaria tal proporção.
A sucessão de manifestações contrárias à amamentação em público tem gerado os mais acalorados debates e manteve o tema na pauta do dia.
Excelente, é disso que precisamos: debate, discussão, enfrentamento, esclarecimento...

Como historiadora me sinto particularmente abismada com o retrocesso conservador que estou presenciando. Sei que a onda reaça não vem de hoje, mas acreditava que a não aceitação da liberdade feminina se dirigia apenas a mim, criatura que busca libertar-se das amarras de uma educação castradora.

Agora o ataque se dirige às mães, aquelas criaturas semi-santas que adoramos e buscamos proteger.

A sexualidade materna esteve durante muito tempo restrita ao domínio do privado. No entanto, os críticos de plantão estão aplicando uma conotação sexual ao ato de amamentar.

Viva! Vamos contar aos homens que existe uma coisa chamada parto orgástico? Que as mães sentem prazer ao amamentar? Que existe um milhão de formas diferentes de uma mulher sentir prazer (sexual, sensual, sensorial) que não envolvem o contato com o macho?


Sim, homens, nós já sabemos disso há muito, só vocês é que não sabiam. O problema do debate em torno da exposição da amamentação não é levantar esses questionamentos. Isso é extremamente sadio e esclarecedor, pois permite o desvelamento  e o entendimento de um tema tão tabu!

O problema é a vulgaridade e leviandade com que o enfrentamento vem sendo conduzido. Críticas veladas ou explícitas, todas revelam preconceitos os mais podres, recalques freudianos e pura e simples ignorância.
Quando as argumentações são ridículas, não existe debate. Quando não há racionalidade, apenas grosseria, nada pode ser construído.

Nesse debate, o domínio do masculino está sendo representado pelo lugar comum do "dominador". O discurso contra a amamentação em locais públicos apresenta argumentos nonsense que enfatizam a estética feminina,

O campo do feminino, por sua vez, está sendo representado por coletividade