sexta-feira, 29 de julho de 2011

Libertação

Comecei a preparar um post sobre a Marcha, mas desisti porque percebi que não conseguirei narrar de maneira condizente tudo o que aconteceu lá. 
Você pode ler posts incríveis e super detalhados aqui e aqui. O vídeo você confere aqui.


Vou escrever apenas o que a Marcha representou para mim.


Sou uma inconformada. Quase sempre o fui (confesso que houve meus momentos de "largar os bets", como dizemos aqui em casa) e de tempos em tempos minha revolta vem com toda a força. 
Nem preciso dizer que estou em um destes momentos, tentando dar conta do mundo-cão que se configura à minha volta.


Por ter que confrontar todos os dias uma educação pseudoliberalcastradoraemanipuladora acabei me acostumando a fazer as coisas do meu jeito sem ligar muito para as consequências. 
Adolescência conturbada, momento de testar os limites. Todos: vida, morte, sexo, loucura, política, ação e reação, amor, solidariedade, ódio, muito ódio.


Ódio de um mundo implacável que não permite a existência do outro, que se configura eternamente na luta do mais forte contra o mais fraco, corrompido por um poder que beneficia meia dúzia de viventes e oprime todo aquele que não faz parte do Mainstream.


Dito isto, volto à Marcha. Eu sabia que estava empreendendo um exercício de engajamento, de comprometimento. Um compromisso social. 


Quando você toma a decisão de agir, você deixa de agir para si e passa a agir para o mundo.


Então, eu tomei coragem e fui: fui gritar ao mundo que SOU VADIA, que não vou mais me calar frente ao mundo que condiciona a mulher, que agride o outro, que normatiza comportamentos dentro da "perversa lógica do capitalismo".


De megafone em punho, gritei bem alto: "sexo anal pra derrubar o capital".


Porque precisamos nos libertar, com urgência.


Eu, diariamente, estou buscando me libertar de meus próprios preconceitos, dos meus comportamentos arraigados que não condizem mais com a minha filosofia de vida...


Seja a mudança que você quer no mundo. Eu quero que as mulheres deixem de ser classificadas de acordo com a sua conduta sexual. Eu quero que as mulheres deixem de ser violentadas e agredidas. Quero que as meninas sejam criadas em segurança, com uma sexualidade sadia...


Ao dedicar meu tempo e energia para a realização da marcha, me pus inteira ali. Revi todos os meus fantasmas, meus medos, meus traumas. Enquanto estava marchando, pensei em todos os homens que interferiram na minha relação com a minha própria sexualidade. Pensei na minha família e em todos as críticas que receberia por estar participando de uma manifestação  dessa natureza.


A cada grito que dava, libertava uma parte de mim que estava aprisionada. Gritei, gritei muito. Cantei, dancei e chorei. Compartilhei. Vivi uma experiência coletiva incrível, única, inédita.
Abracei o centro da cidade mais careta do universo...


E me libertei.


Agora, só ficou o vazio.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Porque eu vou participar da Marcha das Vadias CWB





Faltando exatamente uma semana para a Marcha decidi elaborar algumas coisas e fazer um exercício de síntese.
Hoje temos no evento do Facebook 8.482 pessoas afirmando que irão participar da Marcha, 11.388 pessoas que disseram que não irão e 2.291 que afirmam que talvez participarão.
Mesmo que tenhamos apenas umas 50 pessoas de fato no dia, mais de 20.000 homens, mulheres, gays, lésbicas, jovens, entre outros, refletiram sobre o movimento na cidade de Curitiba, no país e no mundo.


Alguns são bem desavisados, não tem a menor ideia do que está acontecendo; outros sabem exatamente do que se trata e mesmo assim se recusam a participar de tal semvergonhice...


Eu, que estou na vibe feminina e feminista desde o início do ano, ampliei meus horizontes e fui procurar entender um pouco sobre o mundo que nos cerca, nossas relações de gênero e todo o tipo de violência a que estamos sujeitas em nossas relações. 


Deparei-me com a produção acadêmica engajada e militante, a produzida na "torre de marfim" e o senso comum das redes sociais (e convenhamos que nossa mídia oficial também dá um show de senso comum e, o que é pior, de machismo mesmo).


Então, nessas minhas peregrinações pelos textos referentes ao universo feminino, descobri que o corpo da mulher é submetido historicamente e que no século XIX tornou-se "objeto de censuras que traduzem as obsessões eróticas de uma época e se inscrevem nas imposições da moda", como afirma Michelle Perrot


Alguma semelhança? As obsessões eróticas de nossa época aparecem na fala do policial canadense, na piada do Rafinha Bastos, na entrevista do Bispo de Guarulhos ou no comentário da deputada Myrian Rios (você pode ler uma ótima análise de ambos aqui). 


Nossa sexualidade ganhou a esfera pública e todos tem alguma opinião a respeito. Seja quanto ao sexo consensual, ao uso do corpo, à exposição do corpo, ao estupro, à homoafetividade... 


E as opiniões que expressam atualmente revelam um padrão: o da heteronormatividade, que trata da identidade de gênero e suas variações não aceitas socialmente. Não há espaço para a sexualidade feminina, a menos que esteja submetida  à masculina. Não há espaço para a sexualidade homo, bi, trans  ou pan. Também não há espaço para a autonomia sobre o corpo. 


SUBMISSÃO - esta é a palavra que regula nossa ordem.


Confesso que alternei choque e indignação ao me deparar com tal realidade, mas a Marcha realmente ganhou vida para mim quando cheguei ao ponto fundamental do movimento: a violência contra a mulher. 


Mais do que pensar sobre a violência sofrida pela mulher branca, hetero, de classe média (que sou eu), passei a refletir sobre a violência sofrida por todas as mulheres. Então descobri que há anos as mulheres estão marchando e pude pensar bastante sobre por que existem mulheres estupráveis


Foi incrível discutir com o Júlio sobre isso, pois somos ambos frutos da mesma criação e dos mesmo preconceitos. A prostituta pode ser estuprada porque está sendo paga para isso? 


NÃO, NINGUÉM PODE SER ESTUPRADO!!!!!!!! Nem crianças, nem lésbicas, nem gays, nem travestis, nem empregadas domésticas, nem alunas de faculdade.


Esse é o ponto: absolutamente nada justifica a violência!!!!!!! 


Esse foi o resultado de minha reflexão. Tão óbvio, mas tão doloroso pensar sobre isso quando se percebe a verdadeira face da violência, quando deixa de ser um conceito abstrato e passa a falar de você. 


Foi quando cheguei aos números da violência em Curitiba. Números desencontrados, desatualizados, inexistentes, mas que revelam que existem casos de estupro em TODAS as faixas etárias de 0-60 anos ou mais. 


Isso mesmo, temos casos na faixa até 1 ano, de 1 a 4 anos, de 5 a 9 anos... E a faixa com maior número de registros é de 10-19. E maioria dos casos envolve alguém do círculo de relações da família (entre parentes e amigos).


Esses são alguns dos motivos pelos quais eu vou participar da Marcha. 
Há muitos outros. 
Não quero mais fazer parte da estatística das pessoas que muito reclamam e nada fazem, que se assombram com estes números, mas continuam acobertando casos de violência. Não quero que meus filhos cresçam em um mundo que justifica a violência contra o outro (seja ele quem for).


Quero exigir das instâncias de poder público ações concretas para reverter esse quadro. 
Quero exigir da sociedade discussão sobre esses temas, porque enquanto continuarmos sendo tratadas como vadias, enquanto pessoas públicas continuarem declarando seu preconceito impunemente, enquanto continuarmos reproduzindo condicionamentos sociais sem refletir sobre eles, continuaremos a ser violentadas, de todas as formas possíveis.



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontros e Desencontros

Há muito tempo me incomodo com o vai e vem de gente na minha vida. 
Fico inconformada com o fato de que pessoas extremamente importantes na minha história simplesmente desaparecem. Sim, sei que preciso fazer um exercício de desapego, mas sou assim mesmo, apegada...
Durante um bom tempo me senti culpada por não manter um contato constante com os meus amigos. Mudança de escola, mudança de cidade, mudança de estilo de vida... Depois de muito sofrimento percebi que em vez de me sentir a última das últimas por não ter mais os amigos por perto, deveria agradecer pelo que vivi com eles.

De cada um deles eu carrego uma lembrança, ou várias. Muita festa, muito choro. 
Alguns são importantes porque sempre estiveram lá. Outros, porque apareceram naquela hora que eu mais precisava. Uns me ensinaram, outros me deixaram ajudá-los.

Algumas amizades se esgotaram porque eu parti, outras porque insistiram em partir (em todos os sentidos do termo).

Quando alguém muito importante sai da minha vida, sofro, sofro mesmo. Mas às vezes me surpreende e um novo encontro acontece. É assim que tem sido.

Neste processo de reapropriação do self, nome bonito para "colar todos os meus pedaços em mim" estou também usufruindo a possibilidade de agradecer aos que foram, aos que ficaram e aos que voltaram. E até mesmo àqueles que apenas deram uma passadinha na minha existência...



E como isso é só uma reflexão, termino com uma cena linda, que diz tudo e tem a trilha perfeita...




terça-feira, 5 de julho de 2011

Você pode escolher o parto que quer e pode ter – o nascimento do Tom em casa




Desde que decidi que teria outro filho pensei em ter um parto domiciliar. Pelo fato de já ter feito um parto (quase) natural, me sentia bastante segura com relação a essa opção.
O primeiro passo foi convencer o Júlio:

- Veja, Amor, estamos nessa linha mais “natureba” e acho que um parto hospitalar vai contra tudo o que estamos vivendo. Todas as mudanças dos últimos anos (alimentação o mais natural possível, trocar a alopatia pela homeopatia, abandonar definitivamente os analgésicos, muita terapia, para deixar as neuroses de lado...) estão nos encaminhando para isso... Você não acha?

Por incrível que pareça, ele topou e embarcamos na “viagem” do parto domiciliar. Decidimos não contar para ninguém, porque sabíamos que era algo “muito radical” e que o medo de que algo desse errado poderia nos contaminar.

Primeira questão: quem será o médico que fará o parto? Depois de alguns contatos, chegamos até a doutora Betty.

Eu já fazia um pré-natal no hospital militar, com o doutor Álvaro, mas só para pesar e medir. A doutora Betty me ajudou na dieta (para evitar anemia), receitou florais, indicou a yoga e fez várias considerações bacanas. Mas com relação ao parto mesmo, nada.

Quando eu já estava no 6º mês participei de um encontro de grávidas no espaço Aobä e foi lá que tudo mudou. Nesse dia, o tema era o parto natural e elas falaram tudo sobre ocitocina, adrenalina, expulsão, respiração, dilatação... E a Thalia ainda fez uma dramatização do comportamento da mulher na hora do parto. Eu saí de lá maravilhada e comentei com o Júlio: por que é que ninguém me falou isso antes? Que a pior posição para parir é a vertical, pois impede a completa abertura do quadril para a passagem do bebê. Que dói mesmo e que a dor tem um papel importante no processo hormonal. Que aquela hora que a gente acha que vai morrer e pede “peloamordedeus alguém tire esse bebê daí que eu to morrendo” é a hora da expulsão mesmo e o babe já vai nascer...

Passamos o final do ano na praia e quando voltei de viagem, na consulta de rotina, o balde de água fria: veja bem, o bebê virou na última eco... tudo bem que ele já desvirou, mas agora você já está com idade e o seu primeiro parto já foi há muito tempo... Ah, ta, não posso fazer o parto em casa porque eu fiz 35 anos no mês passado e agora estou velha para parir?

Saí de lá, como boa grávida, me sentindo a última das últimas... E fui para outra reunião da Aobä. Contei a conversa com a médica e disse que iria procurar opções... Ao sairmos, conversei com o Júlio: e se a gente fizesse o parto com eles? Gostei tanto de todo mundo, a proposta tem tudo a ver com o que a gente pensa... E o Tom poderá nascer em casa...

No dia seguinte a Luciana (coordenadora do espaço) me ligou para dizer que eu não desistisse e eu disse que queria contratá-los para o parto.

A partir dali, tudo lindo! Conversas com toda a equipe (Luciana, Mario, Thalia e Andréa) sobre o que é o parto ativo, o que implica a mudança de paradigma de que quem faz o parto É A MÃE e não o médico, a enfermeira, a parteira... Fiz algumas ecos para garantir que estava tudo ok (porque nas últimas semanas a gente fica neurótica de tanta ansiedade) e fizemos consultas em casa mesmo.

Fui a mais uma reunião de grávidas e levei para casa a bola de pilates (que é a salvação das contrações!). Eu estava sentindo muitas dores naquela semana, mas era o movimento do Tom dentro da barriga. Ele já estava encaixado e “virava” de um lado para o outro, o que doía MUITO. Dois dias depois da reunião eu acordei com dor. Como já havia sentido isso, calmamente comecei a contar. Uma, mais uma, mais uma. Levantei, peguei um celular que estava próximo e fui contanto (sem óculos no escuro é dureza...) 05:32, 05:43, 05:54, 06:05...

Ai, acho que é agora. Acordei o Júlio, avisando: Amor, “amora”... O quê? Tá brincando!!!... Não, amor, ta na hora... E o que é que eu faço? Passa um café e vamos arrumar as coisas.

Levantamos e começamos a preparar o quarto. O Ian estava dormindo conosco, então o passamos para o quarto dele (reclamando: por que o passeio noturno?...) desmontamos a cama e colocamos a nossa na posição para dar lugar para a banheira que seria montada no quarto mesmo. Ligamos o playlist Rockaby, com versões de caixinha de música das nossas bandas favoritas: Ramones, Radiohead, Metalica, Bjork, muito rock-bebesístico para ele nascer calmo ao som de boa música.

Quando estava tudo pronto, liguei pra Lu: qual é o tempo das contrações? 11 minutos. Já tomou banho? Não. Então toma o banho e vê como ficam as contrações, vou arrumando tudo.

Saí do banho e liguei de volta (já eram umas 7:20). Coloquei um camisetão, shorts e meias e fiquei sentada na bola de pilates, abençoada, balançando para aliviar as contrações. A Lu e o Mario chegaram e começaram a preparar a banheira. O Ian ficou um pouco ansioso e achamos que era melhor ele ir para a natação, pois eu também estava começando a ficar incomodada...

Decidi me esticar um pouco no colchão, alongando as costas e o Júlio fez massagens na lombar, mas logo voltei para a bola. A banheira estava montada e a Lu por ali, com o Ayssô, seu bebê que tinha pouco mais de um mês, me observando, mas sem interferir.

Quando começou a doer muito mesmo, perguntei se já podia entrar na banheira. Não estava cheia, mas a Lu disse que ia ajudar a aliviar a dor. E como ajudou! Tirei a roupa, entrei na água, super quente, e nas primeiras contrações a bolsa rompeu! Senti começar expulsão e avisei: ta na hora.

Comecei a me incomodar com a dor e decidi ficar de joelhos. Fiquei apoiada na borda da banheira e o Júlio do lado de fora, na minha frente segurando os meus braços, fazendo força junto comigo. As contrações da expulsão foram rápidas e logo senti a cabeça do Tom sair. Emocionado o Júlio pergunta: o que é que eu faço??????? E a Lu: nada, não faz nada.

Ele me apertou segurando as minhas mãos, com os braços sobre os meus e a gente fez mais uma força juntos. Na próxima contração eu já senti o Tom girando enquanto o seu corpinho ia saindo. A Lu o pegou na água enquanto eu sentava e o colocou no meu colo. Eu quis dar o peito, mas ele estava tão relaxado que não pegou. A Lu fez uma massagem e aspirou o nariz, soprando um pouco de ar, pois na minha movimentação ele poderia ter aspirado a água da banheira. O cordão ainda não tinha sido clampeado, então sabíamos que ele estava recebendo oxigênio. Logo ele abriu os olhos e ela o devolveu para mim e então ele mamou.

Tive que sair da banheira, por causa da expulsão da placenta e só então lembramos de olhar as horas! (9:45) Fui “transferida” para a minha cama, com ele nos braços e fiquei recostada, ele de olhos bem abertos, mamando e observando tudo! Logo chegou a Andréa, enfermeira, que ajudou a decantar a placenta, cortar o cordão e deu os pontos na laceração da pele da vagina.

O Ian chegou em seguida e ficou apaixonado! Mas ele é uma gracinha! Dizia todo emocionado...

Ficamos umas duas horas nessa energia. O apgar foi feito no meu colo. Ele foi pesado e medido em nossa cama. Eu e o Júlio demos o primeiro banho (que foi uma odisséia, porque era muita mão dentro do balde para segurar o pequenino).

E assim o Tom veio ao mundo: em casa, sonhando, com toda a segurança e tranqüilidade de não depender de uma intervenção para forçá-lo fora do seu tempo. Todos nós saímos fortalecidos, empoderados. Uma força inacreditável nos uniu, com laços bem fortes, de amor e de confiança
.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Resposta a quem acha que a Marcha das Vadias devia ter outro nome

Bom, estava eu confabulando sobre o meu próximo post "porque eu vou na Marcha das Vadias" e esperando arrumar um tempinho para escrever quando recebo a seguinte mensagem no blog da Marcha:


"sou a favor do movimento e estou mobilizando minhas amigas e amigos a participarem do movimento. Porem estou notando grande hesitaçao por parte deles e sinceramente, inclusive da minha parte, devido ao nome do movimento.  Estamos no Brasil, e como todos sabem, o nível intelectual das pessaos é baixissimo.  Acho que foi tb por isso que no RJ nao tivemos muito apoio.  Acho que mais importante do que fazer parte de um movimento mundial,  usando o mesmo nome que esta sendo usado em países com nível educacional mais alto que o nosso, é trazer um grande numero de pessoas as ruas.  Porem muitas mulheres nao querem ser vinculadas ao nome Vadias.  Por isso, ai invés de adotarmos o nome vadias (afinal nao sao so elas vitimas de estupros), nao seria melhor  adotar NAO A VIOLENCIA CONTRA A MULHER ?? 
com certeza mais pessoas iriam aderir ao movimento.
agora vai de vocês decidirem se é mais importante fazer parte de um movimento mundial sem sucesso no Brasil ou conseguir a atenção da mídia pelo numero de pessoas aderidas ao movimento
o Brasil é um país machismo, nos chamando de vadia, nao ajudara em nada ( estou ciente de pq este nome esta sendo usado, mas com certeza nao é adequado em nosso país)."








Confesso que tive que me segurar para não responder imediatamente desancando tal criatura. Mas, pessoa equilibrada que sou, aguardei um tempo, maturei...


Hoje cheguei em casa, tomei "meus bons drink" coloquei uma Maria Bethânia (Lama) e escrevi:




"Falo em nome de todas as organizadoras, pois debatemos muito a respeito do nome da marcha. Entendo o seu ponto de vista e concordo que ele seja o ponto de vista da absoluta maioria da população curitibana (homens e mulheres, jovens e pessoas mais velhas).
Entendo também a sua preocupação com relação à adesão popular das massas. 
No entanto, achamos que levar às ruas o termo vadia é imprescindível para a discussão sobre a violência contra a mulher. Pois essa violência está diretamente ligada às relações de poder estabelecidas no universo masculino. E é esse exercício de poder que faz com que os homens nos chamem de vadias para nos diminuir, para regular nosso comportamento sexual e para desmerecer nossa capacidade de articulação.
Acho também que a discussão sobre a violência deve obrigatoriamente abordar a prostituição e, se falamos em nome das vadias "oficiais" não podemos mascarar a situação.
Entendo que para mulheres brancas, heterossexuais, de classe média seja muito difícil ressignificar o termo vadia e discutir a questão de gênero que envolve os preconceitos contra a mulher (principalmente se for transsexual ou lésbica).
Agradeço a educação com a qual você expôs o seu ponto de vista, pois temos recebido muitos ataques extremamente cruéis e agressivos, que impedem o debate.
Aproveito também para tranquilizá-la quanto ao alcance da marcha, pois mesmo com um nome tão polêmico, já conseguimos agregar as bandeiras de grupos que estão há anos na luta contra a violência. Todas as ongs que trabalham com mulheres, GLBTTs, prostitutas, crianças em situação de risco de violência, estão nos apoiando e irão participar da Marcha.
E o melhor de tudo isso, fomos amparadas e acolhidas pela delegacia da mulher e a secretaria municipal de saúde, órgão do poder público que trata diretamente de todas as questões de violência física e sexual.


Por isso, gostaria de convidá-la a repensar sua crítica ao nome e a juntar-se à nós. Nós incorporamos o nome vadia à luta e hoje nos orgulhamos de sermos chamadas assim, porque para quem está acompanhando todo o processo desde o começo, vadia virou sinônimo de mulher que luta, que não se cala."




Sei que não falei nada além do óbvio e ululante, mas acho que essa é a grande diferença de quem tá acompanhando a luta e quem pegou o bonde andando: nós estamos munidas até os dentes de argumentos, dados, estatísticas, discussões, horas e horas de análise, desconstruções, apropriações, releituras e fogo, muito fogo!


Quando surge um questionamento tão primário quanto este, não dá nem vontade de responder.


Mas é isso, a luta está apenas começando. Seremos apedrejadas, crucificadas... Soubemos inclusive que seremos literalmente ovadas, e provavelmente processadas, pois as pessoas não admitem que alguém diga: SIM, EU SOU VADIA!


Eu sou vadia, e você?

sábado, 2 de julho de 2011

Você decide o parto que quer e pode ter – o nascimento do Ian

Quando soube que estava grávida comecei a rever todas as crenças que eu tinha (oriundas da minha família) a respeito de como gerar, parir e criar um filho. E, das decisões que tomei naquele momento, ficou uma determinação muito grande. Afinal, solteira e sem perspectiva de participação do pai biológico em todo esse processo, não podia me dar ao luxo de “ver o que ia acontecer”.
Assim, lindamente, decidi que eu seria “parideira” como a minha irmã, que teve 3 filhos de parto normal. Nunca passou pela minha cabeça fazer uma cesárea e comecei a me preparar para o parto normal. Pesava na época 45 quilos e usava manequim 36. Primeira questão: vai passar no quadril?
Os médicos que me acompanharam no pré-natal, por sorte, eram todos da linha do parto “humanizado” (dentro dos limites do que era possível na época) e me orientaram “adequadamente”.
Estávamos no ano 2000 e o acesso à informação na rede não era como hoje. Li meia dúzia de livros, fiz yoga para gestantes e as consultinhas básicas: Está passando bem? Tem alguma pergunta? Pesava, media e tchau...
E assim foi, eu estava com 37 semanas, havia feito uma eco para confirmar peso e crescimento. Tinha certeza que ele ia nascer no carnaval, dali à duas semanas. Brincava que ia de odalisca para a maternidade. Na semana seguinte eu iria tirar as fotos de grávida, fazer a depilação, organizar as coisas para o hospital...
Que nada, na madrugada do dia 15 para 16 acordei com um “ploc”... Dormindo ainda, sem saber o que era, acordei minha mãe (estava na casa dela) e fui tomar um banho. Vi que tinha rompido a bolsa. Eram quase 4 horas e as contrações começaram, 15 em 15 minutos. Quando eu saí do banho já estavam de 5 em 5. Ligamos para a Marge, minha irmã, e ela veio de táxi nos buscar. Organizei minhas coisas e fomos no meu carro (e eu ainda queria dirigir! Não, grávida parindo NÃO dirige...). Chegamos ao Hospital Militar às 5:30 e o médico de plantão era um colega de turma, o Vasco. Ele me examinou, estava com 2 de dilatação, e me encaminhou para a internação.
Quando cheguei ao quarto, as contrações já estavam mais intensas. Passei por toda a preparação (horrorosa, diga-se de passagem) do protocolo de parto (que, aliás, eu não fiz). Tricotomia, lavagem... Agora fica aí deitadinha, esperando... Minha mãe e a Marge estavam comigo o tempo todo. Logo meu pai chegou e a Méu, minha irmã do meio, também (os dois só de passagem, pois iam trabalhar). Conversamos, eu disse que estava tudo bem. Como as contrações já estavam muito fortes, elas começaram a fazer massagem nas minhas costa, na altura do cóccix.
Lá pelas 7:30 os médicos chegaram: Márcia, que havia feito o pré-natal, Regiane, plantonista e Rui, chefe da obstetrícia. Eu já estava com 7 de dilatação e a Márcia disse que a primeira medição, feita à 5:30 deveria estar errada, pois tinha aumentado muito rápido. A Méu avisou que na nossa família o TP é rápido, mas mesmo assim a Márcia disse que iria demorar e que voltaria dali à uma hora.
Bom, nem preciso dizer que todo o TP e quase o parto em si foram feitos no quarto. Por um lado, foi ótimo, pois estava na segurança da companhia da minha família, mas por outro eu estava assustada, achando que alguém deveria estar por ali, me monitorando... Outro motivo de medo foi a afirmação da minha médica de que a dor de parto era como uma cólica forte. Ora, eu que tenho super resistência à dor, sabia que ia tirar de letra. Mas quando as contrações de expulsão começaram entrei em pânico, pois achava que não devia sentir uma dor tão forte.
Então, lá estava eu, deitada, às vezes lado, às vezes de barriga para cima, tentando achar uma posição que doesse menos, sentindo, à cada contração aquela vontade de fazer cocô (que só depois soube que era a expulsão) e gemendo e gritando. Chega uma enfermeira e diz: Mãe, a gente sabe que dói, mas gritando assim você atrapalha os outros doentes e a oxigenação do seu bebê... Concentre-se na respiração... (e cale a boca, só faltou dizer...).
Opa, oxigenar o bebê... isso eu posso fazer. E lá fui eu, respiração cachorrinho, segurando a expulsão, sem gritar, deitada, gemendo...
Quando eu achei que ia morrer e comecei a pensar alguém “peloamordedeus” me dê uma anestesia, me faça uma cesárea, socorro, consegui falar pra minha irmã: FAÇA ALGUMA COISA!!!!!!! Só depois ela me contou que não foi um grito, como eu imaginei, mas um sussurro... Ela olhou pra mim, olhou pra minha mãe, e resolveu espiar. Como eu estava pelada, com aquela camisolinha indecente de hospital, toda aberta... deitada de lado, não foi difícil. Eu abri a perna e ela: TÔ VENDO OS CABELINHOS!!!!!!!! Saiu pelo corredor e voltou com uma enfermeira...
Dali para frente foi tudo correria: vários enfermeiros vieram, A Regiane veio, me passaram para a maca e correram pelo corredor até o elevador. No alto falante, eu ouvindo: “Atenção, pediatria, comparecer ao centro cirúrgico com urgência”. Apesar de estar uma correria e todo mundo falando e gritando, pra mim foi tudo em câmara lenta... E eu pensando, que bizarro isso, né, o povo chamando no alto-falante... e eu sendo empurrada na maca...
E veio um medo: estou exausta, não vou conseguir fazer nada, fazer força. Como é que eu vou parir? Será que alguém vai ter que sentar na minha barriga? Não vou agüentar...
Descemos no andar e entramos no centro cirúrgico. Correndo, atrás de mim, entrou a Regiane, esbaforida... Deixaram a maca ao lado da mesa cirúrgica, naquela sala clássica cheia de luzes e tal, e ela disse pra mim: quando tiver vontade de fazer força, me avise. Ela pôs as luvas e falou que iam me passar para a mesa.
Não dá tempo, é agora!!!!!
Ela mal tinha colocado as luvas, pegou um bisturi e zap! Fez a epísio. Fiz a força, achando que ia desmaiar e ...
Pluf: o Ian nasceu! Em uma só contração, saiu inteirinho, para os braços da médica!!!

Ela fez um exame rápido e o colocou no meu colo... Momento indescritível, que, infelizmente, só quem é mãe conhece... Eu lá, chorando, com ele mamando... Só então chegou a pediatra, para fazer o apgar de 10 minutos. Tudo ok...

Fui passada passa para a mesa, a médica toda atenciosa avisando que iria fazer a anestesia para dar os pontos no corte da epísio. Agora? Eu disse, pode costurar sem anestesia mesmo, depois de tudo isso, costurar é o de menos.

Foi um parto lindo, perfeito. Fiz todo o trabalho sozinha, a única intervenção foi a epísio, e ficamos juntos o tempo todo. Voltamos para o quarto, ele todo abraçadinho comigo. Só então relaxei e fiz o primeiro contato consciente... E assim nos descobrimos, eu e ele. Nos reconhecemos e nos amamos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Empoderamento

A primeira vez que ouvi a palavra "empoderamento" foi numa reunião de grávidas. O foco era o empoderamento da mulher no parto natural ativo.
Tudo aquilo era muito novo para mim, pois sou do tempo de parto "normal", sem nada desses nomes pomposos.
Mas na hora entendi qual era a do termo... E me apoderei dele depois do nascimento do meu segundo filho.


Para quem não conhece, achei aqui uma excelente definição


"Empoderamento: é o mecanismo pelo qual as pessoas, as organizações, as comunidades assumem o controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida, de seu destino, tomam consciência da sua habilidade e competência para produzir, criar e gerir." 


Não precisa dizer mais nada...


Esse pequeno prolegômeno serve para a introdução de outro tópico.
O empoderamento da mulher.
Eu não sei onde estive nos últimos 30 anos, mas nunca tinha ouvido nada a esse respeito (e olha que eu sou super ligada nessas coisas).


Então, estávamos nós, organizadoras da Marcha das Vadias, correndo atrás de apoio e de coletividade, mobilizando as mais diversas organizações em prol da "Marcha de Todas as Bandeiras", quando fomos à uma reunião da ONG Espaço Mulher.


A reunião foi na casa presidente, Maria Célia e confesso que fiquei preocupada quando vi aquelas senhoras reunidas em uma sala de estar, como se fosse um chá das 5. (Super preconceituosa, eu, né? Anos de convivência com o pior da classe média pomposa, racista e "caridosa" me deixaram traumatizada...).
Enfim, começou a reunião, ouvimos a Ludmila explicar o propósito da Marcha, enquanto outras senhoras chegavam, muitas mulheres falando ao mesmo tempo...


Fomos totalmente acolhidas, as senhoras nos apresentaram alguns números que tinham sobre a violência contra a mulher em Curitiba (números ridículos de tão enganosos, é necessário ressaltar) e aí começou o debate. Da dificuldade de conseguir informação, da necessidade de transparência na divulgação desses dados, na falta de políticas públicas efetivas, na deficiência no atendimento pelos órgãos competentes, falta de esclarecimento, falta de formação da área de saúde para atendimento de mulheres que sofreram violência, de como funcionam as instâncias de participação pública, da necessidade de educação!


E então, a fala: Nós estamos aqui pelo empoderamento da mulher... Nem ouvi o que veio depois, porque fiquei tão emocionada de ver um discurso tão afinado, tão engajado, feminista (sim!)...
Nada de coitadinhas, vamos salvá-las, vamos tirá-las dessa vida... Nada de hipocrisia assistencialista, caridosa, que diminui o outro e o torna dependente de uma ação redentora.
O empoderamento tem a ver com a responsabilidade por si, com autoestima, respeito, dignidade. Com tomar a sua vida em suas próprias mãos, sair do papel de vítima e assumir o de sujeito.


Confesso que saí de lá aos prantos, renovada de esperança para encarar o mundo cão. E agora, não estou mais sozinha.