quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Separação

Foi lá pelos meus quinze anos que decidir que não iria casar.
É claro que eu queria, como toda a adolescente, mas os caminhos da rebeldia me fizeram questionar seriamente as finalidades do casamento.
Já naquela época era difícil encontrar casais bem-casados para me espelhar. O casamento dos meus pais, dos meus tios, o namoro das minhas irmãs, das minhas amigas...
Das minhas relações, não vou nem comentar... um fracasso total. Com o passar do tempo,a  coisa ficou mais ou menos assim: se eu não consigo ter uma relação decente (e se os homens não prestam mesmo), só me resta desencanar do casamento...
Só fui mudar essa visão lá pelos 20 e tantos, quando descobri que um primo meu, o qual eu admirava muito como pessoa (homem bem resolvido é avis rara) era muito bem casado. Eu não conhecia bem a sua esposa, mas as histórias que ele me contou sobre a relação matrimonial me mostraram que eles, enquanto casal, funcionavam muito bem.
Já tinham filhos, nessa época. Mas também já tinham festado muito, viajado o mundo e estavam construindo uma casa (quase um  Eduardo e Mônica).


Mas diferentemente da música, eles eram de carne e osso. E foi quando eu soube todos os problemas que eles passaram que eu passei a admirá-los ainda mais.


Porque ninguém conta como sobreviver a longas relações monogâmicas mantendo o "fogo e paixão". E não, não é seguindo as dicas da revista Nova que você vai aprender sobre isso. É conversando com genteim como a genteim, que compartilha medos e experiências e te ensina a ver o mundo por outro prisma.


Foi numa conversa que tivemos, na praia, que ele me contou que (já fazia um tempo), a mulher tinha se envolvido emocionalmente com outro cara. Nem sei se ela chegou a "consumar o ato", porque não era esse o ponto ali. A questão era: o que você faz quando descobre que sua mulher está apaixonada por outro?
Não vou entrar na questão feminista-machista do tema, porque esse também não era o foco...
Nada de "aquela vadia" ou "eu acabei perdoando".
A conversa centrou-se em como o casal chegou à conclusão de que ainda havia muito amor naquela relação e que valia à pena batalhar por ela...


Porque para amar tem que lutar muito... Não espere novela lacrimosa das oito, nem romances hollywoodianos água-com-açúcar. Nada disso existe no mundo da vida.
Aqui, na dura e crua realidade, tem-se que batalhar diariamente, investir, ceder, relevar, entender, lutar, mas lutar muito mesmo. Tem TPM, ciúmes, insegurança, fofoca, crises de auto-estima. Tudo isso e muito mais. Mas também tem amor e compreensão e, o que é mais importante, a certeza de que é com aquela pessoa que você quer compartilhar a vida.


Foi isso que eu aprendi dessa conversa. Passei a admirá-los ainda mais e revi todos os meus conceitos sobre monogamia, traição e essas coisas. Quando se tem uma nova perspectiva é possível criar uma história diferente.


É claro que não é assim tão simples, do tipo: "olha, tenho a fórmula, agora vai ser super fácil!", mas me ajudou mesmo a repensar um monte de coisas. E proporcionou que eu também construísse uam relação bacana.


Há alguns anos, pouco antes de engravidar do Tom, ficamos hospedados na casa deles. O Júlio, que sabia o quanto eu era fã do casal, entendeu tudo e passou a respeitá-los também. Ele também tem muito isso de olhar à sua volta e procurar "boas influências". 


Bom, contei essa história imensa apenas para chegar ao ponto importante: o tal casal-sensacional se separou.


No início fiquei frustrada, afinal quem seria o meu modelo? "Olha, eu conheço, sim, um casal bem casado", como eu costumava falar para todo mundo.
Mas passado o susto, percebi que exatamente por terem se separado é que eles continuam sendo ótimos! Porque significa que, perto de completar 20 anos de casados, perceberam que aquela relação não tem mais razão de existir. O amor acabou? Cansaram de lutar? Cansaram um do outro?


O motivo não importa, a maturidade está no fato de que eles se ouviram e se respeitaram. Continuam amigos, cuidam dos filhos, mas vão seguir suas vidas em separado. Não houve xingamentos, quebra-pau, nem rompimentos eternos. Houve uma decisão consciente, maturada durante um ano inteiro, até ser concretizada.


Para quem cresceu vendo casais se mantendo unidos por convenção social, por dependência emocional, ou por simples pirraça, é bom saber que nas relações de verdade, tem espaço para muita coisa, inclusive, para a separação.


E agora os admiro ainda mais, pois estão construindo a sua existência de uma outra forma, com muito mais respeito.

domingo, 28 de agosto de 2011

Ah, o sexo... esse ilustre desconhecido...

Faz pouco tempo que eu descobri o blog da Letícia - Cem homens
Achei a ideia boa e bem a cara do tempo que estamos vivendo... 
Porque conheço algumas mulheres que transaram com mais de cem homens, mas na época não existiam as redes sociais para divulgar.
Confesso que não teria paciência de acompanhar as aventuras da moça, mas precisamos de mais mulheres solteiras que se reconheçam e se afirmem como sexualmente ativas, e até inspirem outras mulheres a se libertarem.


Sim, pois as mulheres que são sexualmente ativas continuam sendo chamadas de vadias... Ainda existem as mulheres "pra transar" e "pra namorar"... E as pessoas, tanto homens quanto mulheres, continuam desconhecendo seus corpos e sua sexualidade.


Esse assunto veio à baila porque dia desses li  esta entrevista, na qual a Letícia afirma o total despreparo sexual da maioria dos homens com os quais ela tem se relacionado.


E, cá entre nós, toda mulher tem uma experiência desastrosa no currículo. É digno de riso... e às vezes é de chorar mesmo. Mas o grande problema é a falta de entendimento do que seja o sexo.


Aí, para ilustrar perfeitamente o problema, leio o excelente artigo da revista TPM: Faça amor, não faça pornô!


Pronto, tá explicado. No meu tempo, o problema era a falta de informação. A gente tinha que descobrir como é que fazia, fazendo... E a maioria errava feio. 
Hoje a superexposição ao sexo deixou os homens ainda mais alienados do que seja o prazer feminino. Acham que é só reproduzir o que vêem nos filmes pornôs e tá tudo bem. Performance cinematográfica, o prazer masculino e a mulher se sentindo um lixo...


E as variantes encontradas nas relações afetivas/sexuais são tantas que ninguém mais dá conta... Veja só, além das mulheres solteiras que querem poder fazer sexo casual em paz, há as mulheres solteiras que querem casar e ter filhos... E sim, há homens que querem comer todas, mas também há homens que querem uma companheira e uma família...
Tenho amigas e amigos que desejam muito uma relação monogâmica estável, mas que simplesmente não conseguem.


A "liberadas" são odiadas, por outras mulheres, mas principalmente pelos homens (como os masculinistas, que eu só descobri que existiam esses dias...)


Como resumo da ópera temos o seguinte cenário: 
1. Hoje em dia continua-se fazendo muito sexo... e de péssima qualidade.
2. Homens e mulheres continuam querendo casar e ter filhos... mas as idiossincrasias da vida moderna impedem que relações saudáveis sejam construídas.
3. Há muita gente, homens e mulheres, que não fazem sexo. E isso é um problema.


Como afirma minha amiga Geisa, não dá para transar sem respeitar o corpo e o prazer do outro.


Sem respeitar seu próprio desejo, sua paixão, seu corpo.


Existe sexo sem amor, amor sem sexo, sexo sem prazer, prazer sem sexo...


Existe gostar, amar, ter tesão...


Mas existe muito recalque para que as pessoas saibam qual dessas é a sua praia...


E o sexo fica assim: muita gente faz, muita gente diz que faz e a maioria não tem ideia de como faz.



domingo, 21 de agosto de 2011

Eu te amo, mas eu não gosto de você

Há vários dias estou elaborando mentalmente alguns posts referentes à maternagem. Nenhum deles ainda foi publicado e essa é a primeira tentativa de síntese de algo que me incomoda muito.


Desde que engravidei do Ian comecei a observar a forma como as mães se referem aos seus bebês e se relacionam com eles. Quando você realmente presta atenção ao discurso, algumas coisas ficam muito claras:


1. Muitas mães afirmam que preferem a fase "tal", pois nessa fase a relação com o bebê/criança é mais tranquila.
(observe o fato interessante de que esse mesmo argumento é utilizado em diferentes situações)


- Há mães que curtem muito a gravidez, a barriga, a espera e a fase do bebê até um ano. Adoram amamentar, curtir o baby, aproveitar o carinho contemplativo e o amor incondicional que as inunda quando veem seu neném recém-nascido dormindo. Infelizmente, essa curtição toda passa, talvez na fase de engatinhar ou de começar a andar, ou talvez dure até os dois anos, quando as crianças já começam a manifestar vontade própria.


- Há mães que sofrem muito na fase bebezinho, com os choros e cólicas e, principalmente a incompreensão das vontades do bebê. Sentem-se frustradas por não conseguirem atender às necessidades de seus filhos e filhas e até um pouco impotentes, pois as crianças recém-nascidas não reagem às suas ações da forma que esperam. Nesse caso, o sofrimento inicial é superado lá pelo o segundo ano de vida, quando as crianças já possuem capacidade de expressar suas necessidades e demonstrar reações inteligíveis.


2. As mães acabam invariavelmente se vangloriando das conquistas de seus filhos e filhas.


- Essa é clássica e mais forte do que qualquer mãe: quem resiste ao impulso incontrolável de contar todas as coisas maravilhosas que seu rebento fez? No entanto, essa superexposição dos talentos e habilidades infantis escode um outro aspecto: você é capaz de se orgulhar do seu filho só porque ele existe? Você ama sua prole incondicionalmente, independente das suas realizações? E se a criança não tiver nenhum talento especial e, além disso, tiver algum tipo de dificuldade, como é que você vai se portar na hora de estabelecer o ranking?


3. Quando os filhos crescem, muitas mães não conseguem mais se relacionar com eles.


- Isso pode começar lá na pré-adolescência dos 5 anos. Aquela fase em que a criança começa a desobedecer, testar insistentemente os limites e a dar aqueles pitis vergonhosos em locais públicos. Nesse caso, o problema também tem a ver com a publicidade... As pessoas estão vendo que seu filho está "reinando" e você, além da frustração de não conseguir se relacionar com a criança ainda passa vergonha na frente dos outros.


- Essa situação pode aparecer quando a criança não quer mais comer nada ou só quer comer "besteiras", quando não quer vestir a roupa que você escolheu, ir à casa da  "sua" amiga brincar com os filhos dela, ficar bem comportadinho...


Estes itens, entre outros milhares que existem, são os mais óbvios no quesito "só te amo quando você faz o que eu quero". Escolhi-os porque são os que eu mais observo no comportamento de amigas e conhecidas. 
Aí você pode se perguntar: Ah, tá, você é a única no mundo que não faz nada disso?


Comigo a coisa funciona assim: desde que o Ian nasceu, comecei a me trabalhar no sentido de perceber e interiorizar que ele é um indivíduo autônomo, outro ser, independente de mim. Sua existência transcende a minha e apesar de todo o nosso vínculo eu não posso fazer nada a não ser amá-lo.


É claro que eu o educo, ensino e oriento, da melhor forma possível. E que nem sempre o resultado dessa minha ação é o esperado, mas a grade questão é que eu me esforço ao máximo, para permitir que ele exista. Desenvolva sua própria personalidade e descubra seu próprio caminho. 


Com o Tom, procuro agir da mesma forma. Trabalho em mim a expectativa de ter um filho perfeito e de realizar minhas próprias vontades (ou frustrações)  através dele. É um grande desafio, mas me sinto mais forte. Foram dez anos de exercícios diários de amor e liberdade.


Hoje vivencio o desafio da pré-adolescência do Ian. E da possibilidade dele se tornar uma pessoa com uma personalidade diferente da minha... 
Isso sim é amor incondicional, o resto é "pose".


Em tempo: a argumentação exposta aqui vale para todo o tipo de relação afetiva, principalmente a do amor romântico. As pessoas continuam amando aquele ser que elas gostariam que o outro fosse... Relacionam-se com expectativas, com sonhos, com desejos e não com a pessoa real. Elas amam, e muito, mas não gostam de verdade...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mamando, parindo, vivendo...

Passado o turbilhão da Marcha, volto a me apropriar de mim e a repensar minhas coisas de maneira mais objetiva. Há uma semana do Mamaço Mundial, em comemoração à Semana Mundial do Aleitamento Materno, me lembrei de um post que comecei a escrever, no blog velho, e que ficou perdido...


Falava sobre a sexualidade da mãe e todos os seus mitos (ou da total ignorância de homens e mulheres...)


Bem, ao revindicar o direito de amamentar em público, me pus a pensar porque será que o ato de amamentar-alimentar um bebê pode causar constrangimento em alguém?


Ao fazer essa pergunta, não estava realmente preocupada com a resposta, afinal tem louco pra tudo, mas sim com o contexto do incômodo.


Primeiro, pensei sobre a exposição do seio, que seria a causa mais óbvia do tal constrangimento. Deixando de lado comentários imbecis como os do pessoal do CQC ou freudianos como os do João Pereira Coutinho, foquei imediatamente na relação corpo-objeto à qual estamos sujeitas atualmente. Nessa linha de raciocínio, um seio exposto obrigatoriamente exige um olhar sexual. A mulher não tem autonomia para expor o seu corpo, construído através do olhar masculino, se não houver a função de seduzir.


É claro que esse pensamento é reforçado socialmente, entre homens e mulheres, pelos padrões de comportamento condicionados e condicionantes à "condição" feminina. Pois ao nos constituirmos objetos, não temos direito de optar por outra relação com o corpo.


Vou desenvolver de outra forma: a mulher possui diferentes formas de prazer físico, que não apenas o sexual e, o que é mais importante, que não apenas o que advém do "olhar" masculino (aqui incluído todas as etapas do jogo de sedução, até o ato sexual em si).


Eu, que tive dois filhos nascidos de parto natural, entendo muito das diferentes sensações de prazer que o meu corpo me permite vivenciar e que não dependem e, o que é mais importante, não têm relação nenhuma com o prazer sexual. Quando se comenta a existência de um parto orgástico os puritanos de plantão já se escandalizam, pois associam a experiência à um orgasmo sexual "comum"...


A questão do tipo de prazer que se pode sentir ao parir um filho de forma plena e natural está diretamente relacionada à força dessa experiência, que no nosso caso (de viventes em uma cultura tecno-industrial), é uma experiência ainda mais forte, pois não faz parte do nosso "background"... Não temos registro histórico coletivo, memória social ou vivência do que seja esse contato supremo com a natureza em toda a sua plenitude. Um parto sem intervenções, realizado com segurança e amor, permite a liberação de uma quantidade imensa de ocitocina. Isso sim é uma experiência orgástica... 


Na mesma linha, a amamentação também gera prazer, pois a liberação da prolactina e da ocitocina inundam o organismo da mãe e do bebê... Mais uma vez, não é um prazer "sexual" no sentido da cópula... É um prazer fisiológico de doação, de amor incondicional.


Difícil é, para homens e mulheres condicionados ao comportamento (sexual e social, por que não?)  regrado, entender e aceitar essa "autonomia" do corpo feminino.


Ah, então o corpo feminino produz prazer sem a atuação masculina, o insuperável falo? Sim, as lésbicas bem o sabem...


Mas o corpo feminino produz prazer intenso, sem conotação sexual? Sim, e basta uma pequena mudança de "paradigma" para se abrir a essa experiência maravilhosa.


A natureza é pródiga e nem deveríamos precisar reafirmar isso constantemente. Mas como deixou de ser uma verdade, deixo registrado aqui. A natureza é pródiga, o corpo humano é perfeito. Basta confiar.


Termino o post com uma pequena provocação: a amamentação é, também, um ato subversivo - anticapitalista. Para alimentar o seu filho e mantê-lo saudável, você não precisa de dinheiro, produtos industrializados, tecnologia, fórmulas mirabolantes. 


Você só precisa de amor,  boa vontade e paciência.


SEMANA MUNDIAL DO ALEITAMENTO MATERNO.

Salvem a Infância!


Há muitas formas de se praticar um ato de violência contra uma criança. Além das mais óbvias e chocantes, escolho hoje a violência simbólica: todos os dias matamos seus sonhos.

Ensinamos às nossas crianças que o papai noel e o coelhinho da páscoa não existem, pois as crianças precisam "crescer" e abandonar o mundo da fantasia (isso é coisa de bebê).

Ensinamos que devem abandonar o desejo de ser astronauta ou bailarina e se concentrar em estudar para ter um bom futuro, uma profissão.

Moldamos seus comportamentos e as condicionamos sua existência à nossa aprovação. Em nome do "eu sei o que é melhor para você" exigimos que sejam os melhores alunos, atletas, musicistas...

Despejamos nossas frustrações e queremos  que nossos filhos e filhas realizem tudo aquilo nós mesmos não fomos capazes...

Em minha casa, o Calvin é quase um membro da família... Temos todos os seus livros e acompanhamos sua viagem pela infância... somos coniventes em todas as suas aventuras. Por isso meu choque ao me deparar com essa tirinha... 

Porque é isso que todos os dias acontece com as crianças que não são compreendidas e amadas em toda a sua maravilhosa singularidade.